Excertos

por Rodrigo Ghedin

Breve análise de uma newsletter pessoal

Sempre que leio alguma coisa em um jornal, revista ou site, procuro saber quem estou lendo. Embora nem sempre a assinatura corresponda ao verdadeiro autor ou esteja disponível, acho um diferencial importante — e que será ainda mais quando dividirmos a bancada na redação com robôs.

Em muitos casos, coloco jornalistas e colunistas acima das publicações. Acompanho a pessoa, independentemente de onde ela escreva. É mais ou menos a ideia das redes sociais, mas livre da toxicidade e da impulsividade desses ambientes. Talvez uma comparação melhor seja com diretores, atores e autores. A individualidade, as linhas de raciocínio, os assuntos cobertos e os trejeitos da escrita se sobrepõem à publicação. (Embora haja uma relação direta; é difícil ter gente boa escrevendo em publicações ruins.)

Ao longo dos anos, sempre tentei manter contato com os leitores mais assíduos, esses que me reconhecem pelo meu texto e gostam dele. “Manter contato”, no caso, no sentido de facilitar para que eles possam me acompanhar onde quer que eu estivesse escrevendo. Já passei por algumas redações e, em mais de uma ocasião, recebi comentários e mensagens do tipo “te lia no site X e não sabia que agora está no site Y”. É, pois, um problema real.

Numa época, tentei alavancar redes sociais para esse fim (funciona mais ou menos). Antes, havia criado um feed RSS que concentrava tudo que eu fazia (mas alguém ainda usa RSS?). Ambas não se provaram boas soluções a longo prazo.

Quando deixei o Manual do Usuário para começar na Gazeta do Povo, fiz algo que deveria ter feito há muito tempo: uma newsletter pessoal. Convidei os leitores a assinarem-na mesmo sem saber o que escreveria ali; naquele momento, manter o contato era o que importava.

Um formato acabou surgindo após o envio de umas três edições sem periodicidade e desestruturadas. Então, hoje, após 26 envios semanais consecutivos e aproveitando esse clima de fim de ano, achei que seria uma boa hora para dar uma parada, analisar alguns números e refletir um pouco.

Manutenção da newsletter

A minha newsletter tem, neste momento, 241 assinantes ativos. Essa última parte é importante porque, desde o começo, estabeleci uma meta elevada para a taxa de abertura. Queria restringir a newsletter apenas a pessoas genuinamente interessadas e, ao mesmo tempo, não abarrotar a caixa de entrada dos demais.

Para isso, criei uma regra: assinante que não abrisse as quatro últimas edições no dia do envio da quinta seria descadastrado automaticamente. Das 334 pessoas que já se cadastraram, 93 foram removidas nesses cerca de seis meses, ou 27,8% — a maioria por esse critério.

Gráfico de assinantes ativos e descadastrados.

No fim, alcancei uma taxa de retenção alta, de 72,2%, com um esforço mínimo da minha parte e, importante, sem qualquer chateação para o (ex-)assinante. Nunca enviei um e-mail dando ultimato para os que me ignoravam. Eu também assino newsletters e sei que, às vezes, bate uma preguiça de ler e as edições começam a se acumular e, mesmo assim, fico com dó ou receio de perder algo, o que me faz empilhar e-mails para ler “um dia”, dia esse que, na prática, raramente chega.

O que faço é tirar esse peso do assinante. Eu puxo o band-aid por ele. E é indolor, porque sequer um aviso de descadastramento é enviado. Ele apenas para de receber as minhas mensagens. (De minha parte também é tranquilo. Não guardo ressentimento de quem foi descadastrado dessa forma, sei que todo mundo enfrenta um leão por dia e há coisas melhores ou mais importantes que a minha newsletter a serem lidas.)

Obviamente, qualquer um que deixou de receber a newsletter (por esse filtro ou por vontade própria; também existe essa opção no rodapé de todo e-mail) e quiser voltar pode refazer a assinatura como se fosse a primeira vez, sem qualquer impeditivo.

Taxas de abertura e de cliques

A taxa de abertura da minha newsletter está em 79%. Em média, cada edição foi lida por 164 pessoas de 209 envios/recebimentos.

Desconheço newsletter que tenha esse índice tão elevado. A ferramenta que uso oferece uma “média da indústria” por categoria. Na minha, que é classificada em “Hobbies”, ela é de 21,2%. Em outras palavras, a taxa de abertura da minha newsletter é quase quatro vezes maior que a média da indústria.

A edição mais lida, proporcionalmente, foi a nona, com taxa de abertura de 86,7%. Em número absoluto, foi a 16ª, com 205 leitores.

A newsletter consiste em quatro blocos: o primeiro com uma introdução/história que tenha acontecido comigo; depois, um bloco com as matérias que eu escrevi e que saíram na editoria de Nova Economia; o terceiro traz textos de outros autores que eu li e de que gostei; e o último com tweets engraçados ou curiosos. (Aqui explico melhor o funcionamento dela.)

As pessoas gostam e clicam nesses links. Em média, 99,6 delas clicam em pelo menos um link de cada newsletter, ou 48,3% de todas que as recebem. Importante notar: sem clickbaiting ou pedidos diretos para cliques.

Ia fazer a média do total de cliques em cada edição, mas esse número fica meio escondido nas estatísticas da ferramenta que uso e aí a preguiça me venceu. Apenas para dar um panorama, fiz um gráfico completo das últimas quatro:

Estatísticas detalhadas das últimas quatro edições.

Satisfação

Nunca paguei um centavo para divulgar a newsletter. Só fiz isso, basicamente, pelo Twitter. Fora de lá, coloquei uma vez o link para cadastro no meu perfil do Facebook (e focado em quem me segue, não nos “amigos”), dentro de duas matérias (salvo engano), uma na Gazeta do Povo, outra no Manual do Usuário, e neste texto no Medium para divulgá-la.

Se os números relativos impressionam, os absolutos, não muito. Qualquer canal de YouTube, perfil no Instagram ou blog pequeno alcança mais gente. A diferença, e o que me motiva a toda semana trabalhar nessa newsletter depois do expediente no jornal, é esse contato mais próximo com amigos e leitores interessados. Não é muito raro receber respostas e continuar a conversa individualmente. Isso é bem legal.

São enormes a satisfação e a responsabilidade de falar com cada uma dessas pessoas que me concederam um espaço em suas certamente abarrotadas caixas de e-mail e, mais que isso, dedicam dez minutos por semana para saberem o que estou fazendo.

Eu gosto muito do e-mail e, pela minha newsletter, vejo que existe muita gente que compartilha esse apreço. Se você gosta do que eu escrevo e ainda não assina ela, é a melhor maneira de acompanhar meu trabalho. O caminho é por aqui.

23 Dec 2017