Excertos

por Rodrigo Ghedin

A chatice segundo a arrogante

Queijo brie.

Sempre me impressiono quando aquele texto da Carmen Guerreiro, “A arrogância segundo os medíocres”, volta à tona no Facebook, invariavelmente seguido por comentários positivos endossando uma opinião que, sob qualquer ponto de vista, parece bem errada.

No texto, Carmen reclama de como as pessoas ficam indiferentes ou até ofendidas quando ela relata suas viagens internacionais e seus gostos refinados. A certa altura, escreve:

“Experiências como essa fazem com que eu mantenha minhas viagens em 13 países, minha fluência em francês e meus conhecimentos sobre temas do meu interesse (linguística, mitologia, gastronomia etc) praticamente para mim mesma e, em doses homeopáticas, comente entre meu restrito círculo familiar e de amigos (aquele que a gente conta nos dedos das mãos).”

Sente-se na cadeira antes de continuar lendo: na real, ninguém está muito interessado nessas coisas. Aliás, agradeça por ter pelo menos família e amigos com quem compartilhar suas desventuras. É provável até que nem eles queiram tanto assim saber de tudo. Eu me interesso pelas viagens e boa comida com que pessoas próximas (e não próximas) a mim têm contato, mas nessas doses homeopáticas que ela cita. Na primeira vez? Conte-me como foi, mostre as fotos, passa o endereço desse restaurante maneiro. Na décima? Lá vem de novo…

Dependendo do interlocutor, inclusive, pode soar rude. Não é tão fácil viajar para fora a cada dois anos, nem manter hábitos gastronômicos sofisticados. Ainda que fosse, não é todo mundo que deseja, acha uma boa ideia, a melhor delas, seja pelo motivo que for. O grau de importância dado ao gosto do queijo brie varia — acho bem gostoso, mas para mim ele tem uma prioridade bem baixa na escala das coisas importantes.

“Censura intelectual”? Faça-me o favor. O que vem depois? Orgulho hetero?

Carmen implica com quem não valida seus gastos com coisas que, para ela, valem o que custam. Materializa a situação que critica invertendo os polos: compra cerveja ruim em vez de vinho? Pobre de espírito. Faz chapinha de R$ 100? Poderia gastar isso numa roupa da moda. Você vê novela? Não tem amigo internacional? Vou ficar na minha aqui pra não estragar a amizade. Gasto o meu dinheiro em coisas melhores que você e ainda sou recriminada por isso? Ahhhh não.

Ela parece desconhecer a ideia de empatia. Falta-lhe sensibilidade, também, para notar as reações do outro e adequar o tom da conversa. A ausência dessas características parece compor a receita do chato:

“A razão mais comum para a chatice é a crise de mania, quando o sistema de recompensa – a área do cérebro responsável pelo prazer — fica superexcitado”, diz a neurocientista Suzana Herculano-Hozel, da UFRJ. Durante a crise, a pessoa sente prazer em fazer ou falar a mesma coisa. “Ela não sabe que está sendo desagradável pois o cérebro produz a sensação de que aquilo é legal”

Imagine eu falando de celulares o tempo todo. Ou um advogado puxar papo e falar insistentemente sobre os casos do escritório, o cliente caloteiro, a última polêmica do STF, o maldito juiz da terceira vara. Ou a gente se sentar com a Carmen para tomar uma cerveja, ops, um vinho seco e ela começar um tour oral detalhadíssimo dos 13 países que visitou.

Pois bem. Ser arrogante é, então, atribuir-se qualidades que fazem com que você se ache superior aos outros. Mas a grande questão é que em nenhum momento coloco que meus interesses por línguas estrangeiras, viagens, design, gastronomia e cultura alternativa são mais relevantes do que outros. Ou pior: que me fazem alguém melhor que os outros.

Ah, mas você faz isso sim. Fez nesse texto inteiro, pelo menos.

O problema não é ser tachada de arrogante. O problema é ser arrogante.

Foto do topo: Wade Kelly/Flickr.

28 Nov 2013