Excertos

por Rodrigo Ghedin

Em defesa da fã da Kéfera

Tweet da discórdia.

Além de propagar memes, mentiras, histórias piegas de superação e notícias importantes (ou não), redes sociais também costumam tirar do anonimato gente que fala bobagem. Quando o assunto é sensível e a represália engrena, o arremesso é violento, repentino; deixa o até então anônimo desnorteado e pode ter consequências severas pelo resto de sua vida. Por isso, acho que deveríamos refletir um pouco mais antes de expôr as bobagens que os outros publicam na Internet.

Hoje foi o caso da menina que escreveu no Twitter que não ligava para o incêndio do Museu da Língua Portuguesa porque lá “só tinham livros velhos e nenhum da Kéfera”.

Atualização: fui avisado de que a defesa que a menina faz da Kéfera é meio… irônica (ah, a ironia da ironia!). Isso não derruba o argumento porque as reações, o que de fato motivou meu texto, foram reais — estavam na minha timeline, inclusive. Sem falar nos outros exemplos desse tipo de comportamento que a curta história da Internet brasileira tem. (Obrigado pelo aviso, Alberto Lage!)

Não é que eu concorde com ela. A declaração, por óbvio, é um absurdo. Eu li o livro da Kéfera e… bem, acho que, numa eventual subversão desse tweet que gerou tanta raiva, ou seja, se todas as cópias de Muito Mais Que 5inco Minutos acabassem queimadas, o saldo à humanidade não seria exatamente negativo. Jovem é meio inconsequente, mais ainda uma que é fã de youtuber. É preciso dar um desconto. Se nos julgamos tão superiores assim, é o mínimo que podemos fazer.

Mas não é o que se vê. A própria Kéfera bloqueou a menina numa estratégia estranha para se afastar de alguém tão aficionado que adota o sobrenome do ídolo em seu perfil no Twitter. Estão xingando a autora do tweet, ameaçando-a, e a própria já disse que “eu vou me cortar” — pode ser xilique, pode ser sério. Em outro momento, num arroubo de tristeza, ela escreveu:

eu to falando serio cara, só quis mostrar meu amor pela minha ídola e levei o block dela e o xingamento de vocês

Eu acho pesado o que ela está passando por apenas ter dito uma besteira sem maiores consequências. Muitos fizeram piada com o incêndio; o erro dela foi ter falado a sério. Ainda mais no Twitter. O usuário médio do Twitter vive tão embebido em ironia que não aceita muito bem a sinceridade e queima (com o perdão da palavra) publicamente uma adolescente por um comentário idiota, típico da idade, que em outro contexto apenas passaria batido. É como discutir com criança. (Na verdade, é isso, mas a tela parece nivelar a idade de todos — para baixo, pelo visto.)

“Público” não é um conceito absoluto. Uma ideia propagada na Internet, em redes sociais, pode “viralizar” e alcançar muito mais gente do que seu autor jamais imaginou. Uns estão preparados e anseiam por isso; outros, não. Redes sociais como o Twitter incentivam a publicação indiscriminada de quaisquer coisas, mas isso não significa que nós devamos entrar na onda e instaurar um tribunal para julgar crimes no Twitter contra a moral e os bons costumes, ou contra os absurdos que adolescentes idiotas (o que é quase uma redundância) cometem.

O mesmo compartilhamento público que constitui o jornalismo investigativo contra um político pode ser destrutivo e degradante contra cidadãos comuns.

A citação acima é deste texto maravilhoso do Anil Dash sobre “público”.

O “público” do Twitter é uma área cinzenta, como uma conversa num bar ou restaurante, com a diferença de que deixa um registro localizável e facilmente compartilhável. Imagine ter todas as bobagens que falamos na mesa de um bar catalogadas, à disposição de desafetos, pessoas maldosas e toda a sorte de gente sem empatia, incapaz de enxergar a pessoa por trás do discurso e ávida por ignorar contexto e outras nuances de uma declaração?

Acontece a mesma coisa em debates ideológicos, religiosos, políticos, tudo que é passível de polarização. Em grande grupos sempre haverá um idiota; em raras vezes ele fala por todos.

Essa menina que usa o sobrenome da Kéfera e acha que a youtuber é a salvação da literatura brasileira vai crescer. Com sorte, terá contato com outros autores, cairá em si do comportamento constrangedor (e só) que tem hoje, mudará de vida. Ou não; pode ser que ela apenas troque seu ídolo por outro, ou continue idolatrando a Kéfera.

Mas nada disso importa muito.

Independentemente do que lhe aconteça, foi injusto e, em certa medida, cruel, o que fizeram com ela hoje. Da mesma forma que tantos cobram cuidado na hora de digitar asneiras que acabam na Internet, precisamos ter um pouco mais de cuidado com outro gesto feito com a mão: o do apontar dedos.

22 Dec 2015 em #críticas