Excertos

por Rodrigo Ghedin

Por que você usa o GetGlue? O que faz com aqueles adesivos?

Adesivos do GetGlue.

Dia desses manifestei no Twitter uma curiosidade que há muito me acompanhava: o que as pessoas fazem com aqueles adesivos que o GetGlue manda? E depois, emendei outra: por que as pessoas usam o GetGlue? Recebi respostas inconclusivas mas que, acho, me ajudaram um pouco a jogar luz sobre esses grandes dilemas da humanidade meus.

De graça, até injeção na testa

Há muito tempo eu tinha uma espécie de variação leve da Síndrome de Diógenes: o que estivesse disponível na Internet gratuitamente, eu pedia. Não importava o que fosse, não importava se fosse algo que eu jamais usaria ou coisas bem, bem estranhas. Eu pedia. Tudo. Olhando em retrospecto, acho que era pela magia de ver algo sair da Internet, na época uma coisa tão distante do “mundo real”, e se transportar para a porta de casa alguns dias mais tarde que gerava esse fascínio e a vontade de pedir.

Nessa, uma vez chegou pelos Correios uma latinha de tinta de parede da Suvinil. Foi quando me deu o estalo e, hey, isso não está me fazendo bem. (E nem sei que fim teve aquela lata de tinta azul-calcinha; a cor era bem bonita, de verdade!)

Acredito que esse lance de adesivos do GetGlue parta da mesma premissa. Pelo que entendi, você entra e começa a curtir as coisas que gosta — filmes, séries, eventos esportivos, apps, produtos… enfim, qualquer coisa. Essas curtidas geram adesivos que, quando chegam a vinte, são despachados gratuitamente para o usuário. Adesivos de verdade, para colar no seu caderno, notebook, porta do guarda-roupa, no cachorro. E como os adesivos são de coisas que o usuário gosta, dá para entender a motivação. Mas a compreensão para por aí, porque ainda não sei o que as pessoas fazem com eles, da mesma forma que nunca entendi a economia ferrenha que meus colegas de Ensino Médio faziam daqueles adesivos que vinham na primeira página do caderno e terminavam o ano lá.

Nas redes sociais onde fiz esse questionamento, recebi respostas variadas, mas não muito. Uns disseram que colariam no guarda-roupas, outros no caderno. O notebook também é um alvo frequente dos adesivos do GetGlue. Mas a maioria, mesmo, foi composta por aqueles que pediram mas jamais receberam eles.

Essa dúvida inicial (parcialmente respondida) enveredou para uma maior: por que, afinal, as pessoas usam o GetGlue? Como um outsider, a imagem que tenho dele é de um local onde as pessoas registram seus gostos e os espalham em outras redes sociais em troca de: 1) adesivos; e 2) exibicionismo, que é uma conclusão quase redundante em se tratando de redes sociais.

Mas a questão, após mais perguntas e mais pesquisa, parece ser mais embaixo. O grande lance do GetGlue é socializar: quando você curte ou marca que está assistindo a alguma coisa, aparece um “with 887 others” seguido de vários desbloqueios de adesivos. Deve ter alguma explicação psicológica para isso, pensei, e pesquisando um pouco vi que o GetGlue é um tipo de aplicação do que comumente se chama TV social.

Conceito nada novo, aliás. A história mostra iniciativas nesse sentido que datam do início da década passada. Mas foi só com as redes sociais e a explosão dos smartphones e tablets que ele pegou. Um punhado de estudos indica que cada vez mais as pessoas tendem a consumir TV via Internet e em paralelo à TV convencional, interagindo com dispositivos móveis (a “segunda tela”).

Neste artigo, Jessica Malnik explora o lado psicológico da TV social. Ela destaca alguns trechos que transcrevo abaixo:

O motivo pelo qual esses sites [Twitter e GetGlue] são tão populares é porque eles transformam atividades tradicionalmente antissociais em experiências sociais coletivas. Eles transformam a conversa comum das salas de estar em um papo global, praticamente infinito.

(…)

É psicologia básica. O desejo de se sentir conectado, de se vincular a interesses comuns e ser aceito pelos outros.

Aparentemente, é bacana gostar, criar e entender referências a Game of Thrones. Ir à loucura no Twitter com o streaming do Lollapalooza e prometer que, de verdade, ano que vem estarei lá. E a torcida para times de futebol? Exemplo clássico (e, por vezes, extremo) desse senso de pertencimento.

Toda vez que você se manifestar acerca de um desses temas em redes sociais, alguém irá responder. É bastante certo que o estímulo gerará reações. Esse tipo de interação é básico, mexe com o gosto e, gosto, apesar de ser um negócio particular por definição, é um abridor de portas, um picador de gelos metafórico para puxar assunto, ainda mais online. Falar que você ama ou odeia um programa, banda ou filme é o equivalente ao “uhul é sexta-feira!” das páginas de marcas no Facebook — pode ser clichê, mais do mesmo, mas gera “engajamento”.

Não sou parâmetro para esse tipo de coisa, mas não me agrada muito essa ideia de TV social. Esse “hype pós-lançamento” de que alguns sentem falta em programas distribuídos exclusivamente sob demanda, para mim funciona mais para saturar um assunto do que promovê-lo. E a TV, essa coitada, englobando na sua definição seriados, filmes, enfim, conteúdo visualizável em telas cheias, não deveria ser sempre uma experiência social. House of Cards não é melhor ou pior por não ter uma galera comentando cada episódio efusivamente uma vez por semana.

Às vezes, numa rara tarde de sábado com clima ameno e sem ter nada para fazer, me meto embaixo das cobertas, ligo a TV e vejo um filme (sob demanda) que está na minha watchlist. É uma experiência que já é legal e que pode melhorar com uma pipoca, ou uma boa companhia (no mesmo cômodo, de carne e osso!), mas não, definitivamente não, com o GetGlue. (Se você discorda, tente me explicar, por favor.)

“Mas eu uso o GetGlue para marcar os filmes que eu já vi!”

Muita gente respondeu isso no Twitter e no Google+. É um argumento perfeitamente válido. (Talvez o texto acima tenha passado a ideia de que eu deteste quem usa o GetGlue; não tenho nada contra, desde que não polua o Twitter com as notificações de adesivos.) Também tem o fator social, saber o que seus amigos já viram e, partindo disso, receber recomendações sobre o que ver.

Não são todos os meus amigos que têm gostos similares ao meu para filmes, então não vejo como isso, ou os novos campos de recomendações culturais do Facebook ou, ainda, a integração desse com o Netflix me podem ser úteis nesse sentido. Prefiro consultar quem sei que me dará boas dicas — além de recomendações personalizadas, é mais uma oportunidade de manter contato em vez de relegar essa relação a um algoritmo frio e impessoal.

Já a parte do registro do que eu já vi, isso acho bem legal e faço também. Minha memória é absurdamente ruim para guardar detalhes de filmes, nomes de personagens e “side quests” de livros e letras de músicas. Qualquer ajuda nesse sentido é bem-vinda. Para tanto, uso o flms, do Seu Felipe. Qualquer txt em um bloco de notas resolve também.

Foto: Gino Carteciano/Flickr.

26 Apr 2013 em #etc