Excertos

por Rodrigo Ghedin

Liguei para Shawn avisando que tinha terminado o artigo e pedi desculpas pelo tamanho. Ele respondeu: “Ah, sr. Hersh, artigos nunca são longos demais ou curtos demais. Eles são apenas interessantes ou entediantes”.

— Seymour M. Hersh, Repórter.

18/8/2020

Quadro do filme Cléo das 5 às 7.

Cléo das 5 às 7 (Agnès Varda, 1962).

18/8/2020

A imagem de Capitu ia comigo, e a minha imaginação, assim como lhe atribuía lágrimas, há pouco, assim lhe encheu a boca de riso agora; via-a escrever no muro, falar-me, andar à volta, com os braços no ar; ouvi distintamente o meu nome, de uma doçura que me embriagou, e a voz dela. As tochas acesas, tão lúgubres na ocasião, tinham-me ares de um lustre nupcial… Que era lustre nupcial? Não sei; era alguma coisa contrária à morte, e não vejo outra mais que bodas.

— Machado de Assis, Dom Casmurro.

5/7/2020

Porquanto um dia Capitu quis saber o que é que me fazia andar calado e aborrecido. E propôs-me a Europa, Minas, Petrópolis, uma série de bailes, mil desses remédios aconselhados aos melancólicos. Eu não sabia que lhe respondesse; recusei as diversões. Como insistisse, repliquei-lhe que os meus negócios andavam mal. Capitu sorriu para animar-me. E que tinha que andassem mal? Tornariam a andar bem, e até lá as joias, os objetos de algum valor seriam vendidos, e iríamos residir em algum beco. Viveríamos sossegados e esquecidos; depois tornaríamos à tona da água. A ternura com que me disse isso era de comover as pedras. Pois nem assim. Respondi-lhe secamente que não era preciso vender nada. Deixei-me estar calado e aborrecido. Ela propôs-me jogar cartas ou damas, um passeio a pé, uma visita a Matacavalos; e, como eu não aceitasse nada, foi para a sala, abriu o piano, e começou a tocar; eu aproveitei a ausência, peguei do chapéu e saí.

— Machado de Assis, Dom Casmurro.

5/7/2020

O discurso nada mais é do que a reverberação de uma verdade nascendo diante de seus próprios olhos; e, quando tudo pode, enfim, tomar a forma do discurso, quando tudo pode ser dito e o discurso pode ser dito a propósito de tudo, isso se dá porque todas as coisas, tendo manifestado e intercambiado seu sentido, podem voltar à interioridade silenciosa da consciência de si.

— Michel Foucault, A ordem do discurso.

19/6/2020

(Ainda a via, às vezes, em almoços à base de pizza, e ela ficava mostrando os retratos dos filhos, dizendo que ele estava desperdiçando a própria vida e que ele não sabia o que era aquilo; ele dizia que se sentia sortudo por não saber o que aquilo era; ela então dizia que de qualquer maneira ele não seria capaz de aguentar o tranco, e ele dizia que não tinha a menor intenção de descobrir, fosse o que fosse; e aí eles ficavam sentados em silêncio, olhando irritados um para o outro.)

— Nick Hornby, Um grande garoto.

19/6/2020

Quadro do filme Mulheres do século 20.

Mulheres do século 20 (Mike Mills, 2016).

15/5/2020

Homem de camiseta, shorts e chinelo e segurando uma bolsa, no meio de uma trilha na floresta.

Em algum lugar de Paraty (RJ).

24/2/2020

Quadro do filme Retrato de uma jovem em chamas.

Retrato de uma jovem em chamas (Céline Sciamma, 2019).

21/1/2020

Sósias

Nós, seres humanos, somos muito diversos. Cores, formas, traços, uma maravilha. Olhe mais de perto, porém, e verá que ao mesmo tempo somos todos bem parecidos. Não tem uma pessoa sequer que não te lembre outra — um amigo, um conhecido, um famoso, alguém aleatório no transporte público que você não consegue precisar com quem, mas tem certeza de que se parece com alguém.

Uma vez disseram que eu parecia com um ator do segundo escalão da Globo. Não soube quem era só pelo nome, aí saquei o celular, procurei fotos do fulano e… ok? Concentrando-me em partes específicas de seu rosto, consegui me ver naquele outro ainda que vagamente.

Só que ter um sósia não tão famoso é inútil. Quando essa conversa de quem se parece com quem surge, de nada me adianta ser parecido com aquele cara porque, embora eu não seja um entusiasta da teledramaturgia brasileira, não estou sozinho no fazer cara de paisagem quando seu nome é mencionado. O trabalho de pegar o celular ou enveredar no “é aquele, que fez o papel de coadjuvante do núcleo de humor daquela novela das 18h que foi um fiasco em 2011” é demais para um exercício coletivo a que recorremos quando sem assunto ou quando a verossimilhança (com alguém mutuamente conhecido aos interlocutores) é digna de nota.

Recentemente, mais de uma pessoa me disse que pareço com o protagonista psicopata de uma série norte-americana. Procurei fotos do sujeito, pois nunca vi a série, e não me achei em nada parecido com ele. “É o jeitinho de vocês que é parecido”, alguém esclareceu para meu completo horror. “Tipo, você não usa foto no WhatsApp”, emendou, não sei se para me tranquilizar ou dar uma dica.

12/1/2020