Excertos

por Rodrigo Ghedin

Anna Arkádievna lia e entendia, mas não estava gostando de ler, ou seja, de acompanhar a representação das vidas de outras pessoas. Queria muito viver ela mesma.

— Lev Tolstói, Anna Kariênina.

10/3/2022

“Como escrever bem”, de William Zinsser

Foto de cima do livro “Como escrever bem”, com capa vermelha e letras pretas, sobre um suporte de madeira clara com duas plantas à direita e o chão de taco à vista do lado esquerdo.

Boa sacada do design de capa deste Como escrever bem mencionar que trata-se do “clássico manual americano de escrita jornalística e de não ficção”.

Digo isso porque, embora o livro apresente dicas valiosas — nada revolucionário, mas que às vezes demoramos para aprender na prática ou nos esquecemos na correria do dia a dia —, muitos dos problemas e soluções que o autor traz dialogam com um tipo de escrita bem característico do ecossistema de mídia dos Estados Unidos — das New Yorker da vida —, que ou não se aplicam ou demandam adaptações para serem válidas aqui, no Brasil.

Feita essa (grande) ressalva, o livro vale a pena pelo conjunto de pequenas dicas e orientações, ora bem práticas, ora meio autoajuda, do tipo “confie na sua intuição”. (Não que isso seja ruim; manter o moral e a consciência de si mesmo são grandes desafios para quem escreve.)

A nova edição brasileira de Como escrever bem, de William Zinsser, foi publicada pela editora Fósforo, a quem agradeço o envio da cópia cortesia que li.

8/3/2022

Gente que não gosta de viajar

Descrever-se é difícil. Há uma linha tênue entre mostrar seu melhor lado e soar esnobe e, frente a esse dilema, não é raro nos apegarmos a clichês. “Gosto de ver filmes”, “adoro comer”, “vivo para viajar”. Quem não gosta disso tudo? Bom… eu não curto muito viajar.

Digo, até gosto, mas não faço questão, de modo que viajo quase sempre arrastado — a trabalho ou por alguém; nos últimos anos, pela P.

Em fevereiro, estivemos na Ilha do Mel (PR), uma viagem bate-volta (um fim de semana) adiada de janeiro, e em Belo Horizonte (MG), onde a acompanhei num compromisso dela. De lá, esticamos dois dias para Ouro Preto.

Foi a minha primeira vez em Minas Gerais. Na capital, ficamos na Savassi, uma região de que nunca tinha ouvido falar e que achei bastante agradável, com muitos restaurantes legais, prédios históricos, praças e tudo mais; uma atmosfera meio boêmia que deus me livre, mas quem me dera.

Fiquei intrigado com as árvores dali. Demos sorte de pegar dias ensolarados e essa combinação, não sei explicar direito, me remeteu à infância. Acho que foram o porte e as espécies de árvores, enormes e variadas, formando sombras que se impõem na paisagem e geram uma sensação de tarde de domingo na casa da vó com Clube da Esquina tocando ao fundo — esse detalhe acústico, uma liberdade poética da minha parte.

Ainda nos clichês, deliciamo-nos com muito pão de queijo, mas o café foi uma decepção: o do hotel era horrível e, ao contrário dos doces e queijos, não achamos pó à venda a preços melhores que os cobrados aqui em Curitiba. Às vezes os clichês perdem a razão de ser.

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Na última década, viagens viraram pretexto para olhar para mapas digitais. O celular tomou para si muitas atividades e rotinas que estavam espalhadas em outros dispositivos e lugares, mas não me recordo de mapas serem tão centrais em nossas vidas, ou na minha.

Até havia um no porta-luvas do carro, um negócio tão complicado que meu pai preferia pedir orientação a alguém aleatório na beira da estrada, não sem antes rodar um tempão a esmo crente de que estava no caminho certo porque homens, mas era isso. O conceito de “mapa” me era mais familiar no cinema, em filmes como os da série Indiana Jones, que no cotidiano.

Nessas e em outras viagens recentes, passei tanto tempo olhando para mapas que eles ficaram gravados na minha cabeça. Mesmo em casa, desde que abdiquei do carro próprio, consulto bastante o mapa do celular para decidir se um trajeto pode ser feito a pé (até 2, no máximo 2,5 km a depender do clima, rola) ou se pego uma carona em aplicativo ou, em tempos pré-pandêmicos, ônibus.

Em Ouro Preto, segunda parte da nossa viagem, os mapas não foram tão úteis. Qualquer “350 metros até o seu destino” se traduzia em suor e cansaço devido às ladeiras íngremes com calçamento irregular das vias. Muito bonita essa arquitetura histórica, mas não é por acaso que elas só resistem em lugares onde alguma lei mantém as coisas como eram no século XVIII.

Fora isso, Ouro Preto é uma cidade bem legal, com paisagens de tirar o fôlego, museus e igrejas fascinantes e ótimos restaurantes — comemos na Parada do Conde, O Passo, Bené da Flauta e Acaso 85.

Viajar a lazer cansa demais.

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P. costuma dizer que sou a única pessoa do mundo que não gosta de viajar. Suspeito que não seja o caso. Minha teoria é de que somos muitos, mas pouco expressivos, o que é compreensível: alguém que viaja sempre tem história para contar — até alguém que não faz questão, como eu. Já quem não gosta de viagens não fala de viagens sob o risco de se tornar monotemático e, portanto, chato.

Não que viajantes sejam sempre legais. Um grande medo que tenho é topar com alguém recém-chegado de uma viagem. Não estou só. Em Minas, comecei a ler Como escrever bem, do William Zinsser. A certa altura, dei uma boa risada com este trecho do capítulo em que o autor aborda a escrita sobre lugares:

Ninguém se transforma tão rapidamente em um chato quanto um viajante que chega em casa depois de suas andanças. Ele gostou tanto da viagem que quer logo nos contar tudo sobre ela — e “tudo” é justamente o que nós não queremos ouvir. Queremos ouvir apenas algumas coisas.

Espero não ter sido (muito) chato no meu relato acima.

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Publicado originalmente na minha newsletter. Inscreva-se gratuitamente.

6/3/2022

Vista de uma rua em Ouro Preto, com calçamento de pedra, prédios históricos dos dois lados e pessoas e carros — em primeiro plano, à esquerda, mulher de cabelo curto e roupa preta de costas.

Ladeira com uma escada na base e prédios históricos dos dois lados. Embaixo, em primeiro plano, senhor negro de cabelos grisalhos com uma camiseta onde se lê “A Feira do Largo de [ocultado] é Patromônio Cultural de Ouro Preto”.

Ladeira, vista de cima, com muitas casas no horizonte, dando a impressão de que não há céu. Em primeiro plano, no topo, um senhor com máscara pendurada no ouvido e cigarro na mão e uma portinha com placa onde se lê: “Casa das Pedras. Precious Stones Guaranty”.

Mulher de máscara, óculos e cabelo curto, de perfil, em meio a vários objetos e esculturas em pedra-sabão, com guarda-sóis brancos encardidos no alto.

Close de um prato, com arroz com brócolis, chips largos de batata e um filé de tilápia grelhado.

Ouro Preto (MG).

28/2/2022

Em primeiro plano, homem com camiseta de time, boné e máscara lê algo sentado em um banco. Ao fundo, um jardim, chafarizes e dois prédios históricos, um amarelo e outro azul.

Prédios antigos e pixados. Embaixo, vista parcial de barraquinhas de feira e pessoas. No meio, à esquerda, uma placa de trânsito indicando Viad. Sta. Tereza, Pça. Estação e Pça. Liberdade.

Foto contra a luz de uma barraca de queijos e geleias no Mercado Central de Belo Horizonte, com uma mulher/funcionária atrás do balcão e silhuetas de dois homens do lado de fora.

Close de um pão de queijo com recheio de queijo e costela suína desfiada.

Belo Horizonte (MG).

28/2/2022

Sou a favor do paywall em texto de gente bosta. Você clica por curiosidade, “que bosta será que esse bosta escreveu agora?” e pá, o paywall entra em ação e impede que você leia um monte de bosta e fique irritado de graça.

24/2/2022

Após realizar uma profunda pesquisa (dois vídeos do Manual do Mundo e um review aleatório de canal gamer), estou apto a não só escolher segundo critérios objetivos e coerentes, mas também a operar uma furadeira/parafusadeira.

Este apartamento está à beira de uma revolução.

14/2/2022

Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade.

— Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão.

17/12/2021

Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua última vontade.

— Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão.

17/12/2021

Noutro dia vi um rapaz, num café, sem celular, sem tablet, sem smartphone… estava sozinho tomando café. Como um psicopata.

Rogério Skylab.

17/12/2021