Excertos

por Rodrigo Ghedin

Comunicação não-violenta

Por vezes me julgo uma pessoa sensata — sentimento esse comum a todo ser humano pensante, imagino. Até que me vejo desmascarado, discutindo sem qualquer base e agressivamente o que caracteriza um tsunami com pessoas queridas, mas que também estão fora do tom e não têm a menor ideia do que estão falando. “São ondas gigantes”. “É a amplitude da onda”. Pega o celular, pesquisa. “Na verdade, é o comprimento da onda”. “É um terremoto no mar”.

Viver isolado dá a falsa sensação de se estar por cima, de conseguir ver problemas óbvios que só são óbvios porque os vejo de fora, tanto que quando adentro ao caos eles se tornam inescapáveis mesmo a mim, a pessoa supostamente sensata. Poderia ter me furtado de discutir a natureza dos tsunamis, ou discutido como se aquilo não parecesse uma questão de vida ou morte, mas não o fiz. Por quê? Não sei.

O próximo livro que quero ler é aquele “Comunicação não-violenta”. Espero descobrir nele a resposta, esperança esta também embasada fragilmente em comentários esparsos de gente aleatória que já leu o livro e deixou reviews positivos na Amazon e em uma vaga ideia de que a chave para solucionar esse problema específico (discussões desnecessárias e agressivas, não a definição de um tsunami) está na comunicação não-violenta, seja lá o que isso for. Convenhamos: é um título que promete muito, só de ler já bate uma paz, uma vontade de abraçar todo mundo e, sei lá, fazer um sarau.

Talvez a gente devesse discutir menos.

5/1/2020

Em que desordem vivíamos, quantos fragmentos de nós iam sendo lançados como se viver fosse explodir em estilhaços.

— Elena Ferrante, História da menina perdida.

22/12/2019

Quadro do filme A vida invisível.

A vida invisível (Karim Aïnouz, 2019).

22/12/2019

33

O último ano começou de uma maneira inesperada, com uma demissão. Abriu-se ali o caminho para viver um ano que sempre tive certeza que viveria, mas do qual sempre me esquivara até então: o de viver sozinho e trabalhar por conta própria, com dedicação exclusiva, no Manual do Usuário.

Os meus 32 foram um pouco áridos. Passei um tempão comigo mesmo, talvez mais do que seja saudável. Desgostei de muita coisa, vi-me impotente em muitos momentos, quase virei um cínico. Mas ainda tenho esperança. A vida pode melhorar, apesar dos pesares.

Há um ano, havia acabado de me inscrever em uma academia de ginástica. Sigo frequentando-a. É um lugar chato, mas os resultados compensam. Vendi meu carro e acho que contribuí para o silêncio digital, esse estado raro em uma época em que todos falam muito e muito alto. A única coisa que desejo para este ano que se inicia é falar com mais pessoas olho no olho, sem uma tela entre nós. Acho que é viável.

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31 e 32.

8/11/2019

As redes sociais servem apenas para que as pessoas se expressem de forma rápida. E vivemos numa época em que vale a pena pensar um pouco antes de reagir. Creio que, se eu me expressar rapidamente sobre qualquer coisa, eu mesma desconfiarei de mim. Não custa nada refletir um pouco antes de postar o que for.

Soledad Gallego-Díaz.

6/10/2019

O que definia a nobreza no Brasil era o que ela não fazia. Dedicar-se ao trabalho braçal, cuidar de uma loja, atuar como artesão e demais atividades eram coisas para gentios ou cativos. Talvez por isso persista aqui um preconceito contra o trabalho manual, considerado símbolo de atividade “inferior” e menosprezada. Já os “nobres” deveriam viver do rendimento de aluguéis e de cargos públicos. Melhor ainda, se o capital permitisse, era ser proprietário de engenho e se cercar de um grande número de agregados, parentes e criados. Capital, domínio, autoridade, posse de escravos, dedicação à política, liderança sobre vasta parentela, constituíram-se nas metas desse ideal de nobreza, que dominava a sociedade colonial. Tal modelo idealizado perdurou durante todo o período açucareiro, criando uma sociedade patriarcal pautada num padrão de família estendida. Se a família biológica era o núcleo do engenho, fazia parte do cabedal de um senhor contar e suprir agregados, parentes, criados e escravos.

— Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, Brasil: Uma biografia.

22/9/2019

Persona

Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019).

22/9/2019

Dia de figurante

Soube que um time de futebol argentino veio a Curitiba jogar contra o Athletico (agora tem esse “h” no meio) por um campeonato que não me interessou muito saber qual era.

Na quarta, dia do jogo, fui malhar depois do almoço e já de saída notei pessoas com camisetas nas cores azul e amarelo. Depois, em uma churrascaria no caminho, reparei em uma mesa enorme cheia de homens de meia idade com camisas azuis e amarelas bebendo cerveja. Coincidência? Não. Eram todos torcedores que saíram da Argentina no meio da semana para assistirem a um jogo de futebol em outro país.

Senti-me como se fosse um figurante no filme da vida deles. Uma sensação rara. O nosso ponto de vista normalmente é egoísta: a gente sempre se acha protagonista de todas as situações, mesmo naquelas em que seríamos apenas um figurante não creditado, como quando ficamos em um canto num lugar onde não conhecemos ninguém e ao qual não fomos chamados. Fossem as cenas do parágrafo anterior um filme completo, eu teria sido um mero figurante.

Quando viajo, parece que a sensação de ser o protagonista da vida se intensifica. Afinal, estou longe de casa, fora da rotina, vendo a vida (dos outros) passar. O garçom que me atende no café, a recepcionista do hotel, os motoristas de aplicativos e, evidentemente, o cara de cabelo estranho e roupa de academia que passa na calçada do restaurante onde aguardo meu pedido em um horário em que, estivesse em casa, já teria almoçado, feito a “siesta” e voltado ao batente. Ou sendo eu aquele cara estranho que vai à academia logo após o almoço — pois o momento mais vazio do dia e uma das grandes vantagens de não ter que bater cartão é fazer os seus próprios horários.

28/7/2019

Toalhas novas

Temos uma espécie fetiche pelo novo. Espremer um tubo de pasta de dente pela primeira vez, abrir a caixa de um celular novo, exibir-se em uma roupa nova. Talvez não haja manifestação mais escancarada dessa obsessão que o sucesso dos vídeos de “unboxing” no YouTube.

Não nego que também gosto. O último luxo que me dei foram toalhas de banho novas. As minhas já estavam bem gastas, então usar as novas foi quase como redescobrir a experiência mundana de enxugar-se após o banho.

Ao mesmo tempo, foi com algum pesar que me livrei das toalhas antigas, já encostadas para, em breve, virarem panos de chão. Não se trata de criar um vínculo afetivo, o que a psicologia chama, no caso das crianças, de “objetos de transição”. Nem avareza, porque se sim as teria substituído pela opção mais barata da loja de departamentos, o que não foi o caso.

Em algum momento do passado caiu a ficha da finitude dos recursos e de como tudo que consumimos aumenta o nosso débito com a natureza. Vez ou outra penso que dou muita atenção a isso porque até coisas minúsculas, como ter que comprar outra pinça porque a minha sumiu — uma história real! —, me incomodam. Parece pouca coisa, é pouca coisa, porém veja: é uma pinça a mais produzida por culpa exclusiva da minha negligência. Completamente evitável.

Em paralelo a essa revelação, descobri um tipo de prazer menos eufórico, mais satisfatório no que me é familiar e no uso pleno dos produtos que já tenho. Imaginar um celular novo me remete aos transtornos de ter que migrar meus dados, configurá-lo do jeito que eu gosto e adaptar-me às suas particularidades. Gosto do meu, estou satisfeito e, sinceramente, não preciso de outro só porque a tela é maior/tem menos bordas ou a câmera é supostamente melhor. Isso vai desde esses produtos que levam mais tempo para serem trocados até os alimentos perecíveis. Tenho aperfeiçoado a logística doméstica a fim de evitar que a comida estrague, uma postura que contempla, também, o aumento da tolerância a alimentos que parecem passados, mas que ainda estão bons. (Uso como termômetro para não virar uma lixeira humana o fato de que não tenho recordação de intoxicações alimentares recentes derivadas de experiências mais ousadas nesse sentido.)

Quando falei dos potinhos de temperos (na newsletter), reclamei que ser ambientalmente consciente era trabalhoso, mas esse estilo de vida também tem um lado prazeroso, de que, mesmo fazendo pouco, você está fazendo alguma coisa. Uma espécie de contentamento.

No mais, espero que as minhas toalhas novas durem bastante.

21/7/2019

Panela de pressão

Nos últimos anos reduzi meu consumo de leguminosas a basicamente quando como fora. Longe de não gostar, é que nunca havia mexido com panela de pressão e tinha medo de explodi-la na tentativa de cozinhar um feijão.

Patético um adulto de +30 anos com medo de uma panela? Certamente. Até tentei achar algum dado que atenuasse a minha situação ridícula, mas “explosões de panelas de pressão” sequer figura na lista de principais causas de morte da humanidade. Acho que todos devemos um reconhecimento à engenharia das panelas de pressão e à diligência de cozinheiros e cozinheiras no mundo inteiro.

A preguiça também teve um papel relevante nesse atraso. Era apenas uma questão de entender a lógica da panela de pressão a fim de evitar o desfecho dramático da explosão. Aprendi, afinal, que desde que eu não a esqueça no fogão, estarei a salvo.

Pois bem: na última segunda-feira (24), tornei-me uma pessoa capaz de cozinhar alimentos na pressão! Aprecie o meu primeiro feijão cozido:

Feijão cozido.
Um almocinho vegano caseiro para começar bem a semana.

Passou um pouco do ponto e/ou deixei muito tempo na água de um dia para outro, o que resultou em pouco caldo e alguns grãos esbugalhados. Apesar disso, ficou gostoso. É o que importa, certo? E também uma falha relativamente simples de corrigir nas próximas oportunidades, que, agora que dominei a panela de pressão, pressinto que serão frequentes.

Agradecimentos às pessoas pacientes e compreensíveis que possibilitaram esta vitória em minha vida — P. e minha mãe.

30/6/2019