Excertos

por Rodrigo Ghedin

Eu (re)fiz um blog

Estava insatisfeito com este blog no WordPress. Sabe quando você exagera na dose ao resolver um problema? A solução funciona, mas parece tão… inadequada para o problema que passa a ser, ela própria, um incômodo. Era assim que me sentia com o WordPress para publicar essas poucas palavras esporádicas num blog que leva o meu nome.

Então, comecei a buscar por alternativas. Sistemas de blogs estáticos eram a solução mais óbvia. O WordPress é um gerador de sites dinâmico. Funciona, mas é um exagero para isto aqui. Na prática, ser um sistema dinâmico significa que cada vez que alguém acessa um post, o pedido do navegador ao servidor por uma cópia desse post desencadeia todo um processo interno que envolve um banco de dados e outras ações de que não convém falar. Tudo para entregar umas poucas linhas de texto. É um exercício enorme e quase sempre injustificado.

Um sistema estático, por outro lado, é só um monte de arquivos, como esses que você salva no seu computador, colados num template e servidos assim, “crus”, do jeito que foram escritos. Ele não tem sequer uma área administrativa, um painel web onde se escreve os posts. Para publicar alguma coisa aqui, eu escrevo o post em qualquer editor de textos no meu computador, salvo o arquivo e faço um commit no GitHub.

Pois é, eu também ficava travado nessa parte de “fazer um commit no GitHub”. Tentarei explicar mesmo não dominando esse negócio.

Desde que tomei conhecimento dos sistemas estáticos, há uns quatro anos, era a parte do GitHub que me impedia de brincar com eles. O GitHub é um sistema muito popular entre programadores. Ele permite gerenciar versões de códigos e receber colaborações de outros programadores, mantendo tudo registrado, organizado e facilmente recuperável. Eu uso ele, na verdade só o básico do básico, para manter o layout do Manual do Usuário atualizado. Usar o GitHub para gerar um blog estático não é muito diferente, mas até sacar as nuances que distinguem as duas atividades foi um sofrimento, potencializado por tutoriais muito ruins que o buscador retorna aos desesperados ignorantes em busca de uma luz.

De qualquer modo, após bater bastante a cabeça na parede, deu certo. Criei o blog localmente com o Jekyll, o sistema estático que escolhi; importei o conteúdo do finado WordPress para ele; fiz o template, aí criei meu blog no GitHub Pages, que é gratuito e resolve bem para algo despretensioso como é o meu caso; por fim, direcionei esse domínio bacana, ghed.in, para lá. Depois acabei ativando o Cloudflare, uma CDN gratuita, para ter um certificado SSL (o cadeado de site seguro, o que garante que nenhum bisbilhoteiro saiba que você esteve visitando este blog).

O mais legal, e isso era uma meta pessoal, é que este blog não emprega uma linha sequer de JavaScript. Essa linguagem, diferentemente de outras como o PHP, roda localmente, no próprio navegador. Ela serve para uma infinidade de coisas, de registrar a sua visita aos sites (e monitorar seus hábitos de navegação por eles) a criar efeitos especiais nas páginas. Em muitos casos, é usada em excesso, o que gera dois inconvenientes: aumenta o tempo de carregamento e o consumo de dados e aumenta as chances de um site quebrar ou funcionar erroneamente. Não preciso de nada disso aqui.

Ao visitar este blog, você não deixa nada para trás e eu peço pouquíssimo em troca. Em posts sem imagens, como este, míseros 10 kB de tráfego — apenas como referência, um tweet besta como aquele meu do “vou beber água” exige 2,34 MB, ou 2285 kB por três palavras. Ah, e também alguns minutos do seu tempo, se ler tudo até o final. Eu realmente não acho que o que escrevo aqui tenha lá muito valor, então exigir mais do que isso seria (olha o termo aí de novo) um exagero.

No mais, gosto desse visual espartano, utilitário. Deixei apenas o básico, o essencial para que você me leia. Nada além, nada aquém. Estou restaurando os posts antigos aos poucos, um a um, manualmente. Nesse trabalho, aproveito para revisar os erros (gramaticais, ortográficos e da minha cabeça). Está sendo legal revisitar coisas que escrevi há dez anos. As que sobraram daquela época, pelo menos.

Se quiser ser avisado dos futuros posts, o que é uma boa já que não tenho ideia de quando escreverei aqui novamente, assine o feed ou esta newsletter que acabei de criar só para isso. E obrigado pela sua atenção!

14 Feb 2017

30

Em todos os anos anteriores, sempre tinha algo em mente sobre o que escrever aqui no dia do meu aniversário.

Hoje, não.

Estou bem, obrigado, fazendo meio que as mesmas coisas em que estava metido há um ano. Essas grandes movimentações — trabalho, formação — tomam tempo, então me parece surpreendente, revendo o que passou, o tanto de novidades que eu tinha uns anos atrás nos intervalos entre eles.

De novo e significativo, talvez, apenas como tenho encarado o meu papel no mundo. As pessoas que afeto e de que maneira, as questões que estão ao meu alcance avançar e as que não, o que, afinal, me importa ou me impacta. Idealmente, é uma transformação constante e que, talvez por isso, nos passe despercebida. O que me chamou a atenção, nesse último ano, foi a celeridade dela e percebê-la em curso.

Entre essas transformações, está bem forte em mim a de que a Internet precisa ser revista. Eu não sou um nativo digital; passei pela transição de um mundo offline para um que não se desliga jamais. O deslumbramento em testemunhar tal mudança demorou a passar. Agora é hora de colocá-la em perspectiva. Já passou da hora, aliás.

Na prática, e é possível que isso seja mais um desejo descompromissado do que uma meta (porque dessa forma perderia o sentido), quero tirar (ainda) mais os olhos das telas e ter mais contato com o mundo material. Diminuir as camadas de abstração. Machucar-me, se preciso — “curtidas são para covardes, busque o que machuca”, escreveu Jonathan Franzen.

Pode parecer que o timing é errado, ante a iminência da realidade virtual e outros simulacros, alguns nos quais já estamos afogados. E ainda mais vindo de alguém que escreve sobre tecnologia! Gosto de pensar, porém, que por essas circunstâncias faz mais sentido o interesse pelo que vem de fora. Pelo que vem do passado, por aquilo que não dialoga diretamente com a tecnologia, mas que tem muito a dizer e a ensinar àqueles que estão nessa.

(Mais cedo, recebi a ligação de um robô querendo me desejar feliz aniversário. Ele perguntou duas vezes se era hoje mesmo, eu respondi que “sim”, ele não conseguiu entender. Fiquei sem meu parabéns robótico.)

Há cinco anos, comparei-me a uma folha em branco. Não a vejo, hoje, muito preenchida, mas abrir aquele espaço me trouxe oportunidades bem legais e permitiu um crescimento que de maneira alguma poderia antecipar. Com vários ciclos prestes a se encerrarem, espero que o início dos trinta se revele outra folha em branco. E se na próxima meia década eu passar por tantas transformações quanto as que passei na última, já serei bastante grato.

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28 e 29.

8 Nov 2016

A few hours a week, Carole does my laundry and counts my pills and picks up after me. I look forward to her presence and feel relief when she leaves. Now and then, especially at night, solitude loses its soft power and loneliness takes over. I am grateful when solitude returns.

Donald Hall

28 Oct 2016

Fez bem a Joey ver o quanto Jenna ficava feliz montada no cavalo. Antes estava tão deprimida e mal-humorada, não só durante a viagem mas nas conversas por telefone dos últimos meses, que ele começara a se perguntar se havia qualquer outra coisa de que se pudesse gostar nela além de sua beleza. Agora ele percebia que Jenna pelo menos era capaz de fruir o que o dinheiro lhe facultava. Ainda assim, era desanimador pensar na quantidade de dinheiro necessária para fazê-la feliz. Ser a pessoa que a mantinha em cima de bons cavalos não era tarefa para os fracos de coração.

— Jonathan Franzen, Liberdade.

23 Sep 2016

Existe uma tristeza ocasional nos primeiros sons do trabalho alheio pela manhã; é como se o silêncio experimentasse uma certa dor ao ser quebrado. O primeiro minuto do dia de trabalho nos lembra todos os outros minutos de que um dia é composto, e nunca é bom pensar em cada minuto individualmente. Só depois que outros minutos se acumularam por cima do primeiro minuto, nu e solitário, o dia se integra de maneira mais segura ao seu transcurso.

— Jonathan Franzen, Liberdade.

18 Sep 2016

— Você é terrível para dizer coisas insultantes, Jake.
— Desculpe. Tenho uma língua má. Nunca tenho intenção quando digo coisas desagradáveis.
— Sei disso. Você é realmente o meu melhor amigo, Jake.
Deus o ajude, pensei.

— Ernest Hemingway, O Sol Também se Levanta.

18 Aug 2016

Que tempos penosos foram aqueles anos — ter o desejo e a necessidade de viver, mas não a habilidade.

— Charles Bukowski, Misto-Quente.

1 Aug 2016

Os melhores estudantes receberam seus diplomas primeiro. Foram sendo chamados. Abe Mortenson estava entre eles. Pegou seu canudo. Aplaudi.
— Onde ele vai terminar? — perguntou Jimmy.
— Contador em uma fábrica de peças automotivas manufaturadas. Em algum lugar perto de Gardena, Califórnia.
— Um emprego pra vida toda… — disse Jimmy.
— Uma esposa pra vida toda — acrescentei.
— Abe nunca será miserável…
— Nem feliz.
— Um homem obediente…
— Um pau-mandado.
— Uma múmia…
— Um covarde.

— Charles Bukowski, Misto-Quente.

31 Jul 2016

Blue Jasmine

Blue Jasmine (Woody Allen, 2013).

26 Jul 2016

One of the biggest mistakes rich people make is to try to live larger than a single human being can. A mathematical impossibility. You can buy a big house, but you can only sleep in one bedroom at a time. You can own twenty fantastic cars, airplanes and yachts, but you can only be in one at a time. You can own an NBA team and a MLB team, and you get to sit in the nicest seat in the house at games, but you still can only sit in one seat. In other words, your humanity doesn’t increase just because your wealth did. You don’t get bigger.

Dave Winer.

9 Jun 2016