Excertos

por Rodrigo Ghedin

Qual o problema em permanecer pequeno na Internet?

Nunca entendi direito por que toda empresa precisa crescer, expandir, aumentar o faturamento. Qual o problema em permanecer pequeno? Em, mais do que ficar nesse estado, abraçá-lo e usá-lo como diferencial? O tratamento personalizado do cliente, o clima mais íntimo e aconchegante, o gerenciamento simplificado. Como se nota, existem algumas vantagens.

Na Internet a mesma regra vale. Há uma busca incessante por mais page views, por mais conteúdo, pelo crescimento, popularidade etc. É mais justificável se pensarmos que o meio de fazer dinheiro aqui passa, na maioria dos casos, pela publicidade, e essa depende diretamente de volume — mais gente vendo anúncios é igual a mais chances de cliques que se convertem em mais dinheiro. Ou, em muitos casos, em algum dinheiro. Porque não é fácil, de verdade.

Há casos, porém, que mostram que dá para permanecer pequeno em meio a gigantes que atraem milhões de visitantes e, mesmo assim, lucrar. Dois exemplos ganharam destaque recentemente.

Do Gizmodo para um site pequeno e focado em conteúdo com prazo de validade maior, Brian Lam criou o Wirecutter. É um site de recomendações de produtos. Não personalizadas, nem baseadas em algoritmos malucos. Lam e seus contratados (todos freelancers) escolhem uma categoria, leem e analisam o que podem sobre os produtos dela e, no texto, indicam os melhores. Tem de tudo, do que você encontra em qualquer site (smartphones, tablets, notebooks) até coisas bem inusitadas (malas, preservativos).

David Carr traçou um perfil de Lam e do seu Wirecutter no New York Times. A matéria é bem interessante, com alguns pontos altos:

“‘Estava cansado de escrever posts que ficavam obsoletos três horas depois de publicá-los’, disse Lam. ‘Eu queria conteúdo vitalício que não precisasse ser atualizado constantemente para conseguir tráfego. Queria publicar coisas que fossem úteis.’”

Acho que todo mundo que escreve acredita nisso. Conteúdo mais resistente ao tempo dá mais retorno a médio e longo prazo e é muito, mas muito mais desafiador e prazeroso para o autor.

O Wirecutter recebe 350 mil visitantes únicos por mês, se sustenta basicamente com links de referência da Amazon (e taxas de cliques astronômicas em relação à média da web) gerando US$ 50 mil por mês. Nada mal.

Outro exemplo, de longa data, é o de Maciej Cegłowski do Pinboard. Não é de hoje que acompanho e admiro as ideias que ele tem. Este post, por exemplo, sobre “usuários gratuitos”, é uma das coisas mais inspiradoras que já li do tema. O blog do Pinboard tem outras pequenas pérolas — vale a pena acompanhar.

O Pinboard é um site de bookmarks, como é (era?) o Delicious. Quando a Yahoo! decidiu vendê-lo, o Pinboard despontou como a melhor alternativa ao incerto Delicious. E continua sendo, pela simplicidade e poder que Maciej emprega nele. A mentalidade não é crescer a ponto de receber investimentos externos ou ser comprado por uma grande empresa; ele quer apenas manter o negócio funcionando de forma sustentável.

A última investida é o Pinboard Investment Co-Prosperity Cloud, uma sátira às altas cifras injetadas por investidores em startups. As seis melhores ideias escolhidas por ele ganharão US$ 37 cada e alguns benefícios de sites e serviços, nada muito impressionante, para fazer as engrenagens girarem. A descrição do concurso é bem engraçada, mas a explicação a la comunicado à imprensa não deixa dúvidas sobre as suas intenções (ainda que em tom irônico):

Em 2012, o pensador da Internet Maciej Cegłowski chacoalhou a comunidade de startups com seu provocativo slogan “Mais ou menos bem sucedido”, desafiando empreendedores em potencial a rejeitar a cultura de loteria do Vale do Silício em favor de projetos menores e sustentáveis que poderiam lhes dar uma chance mais realista de independência financeira.

Hoje, ele lançou a segunda parte da sua filosofia de negócios, o “Investimento mais ou menos”, que acaba com o mito de que financiamento é o maior obstáculo para criar um pequeno negócio na tecnologia.

O bacana da Internet é que há exemplos de boas ideias de todos os tamanhos possíveis. Na outra ponta podemos citar o Verge — altos investimentos, editorial frenético, podcast, talk show (bem bacana), tudo muito grandioso. Funciona? Também. Mas não é o único caminho, como os dois exemplos acima e tantos outros provam. Não é preciso ser grande para ser bem sucedido. O desafio nem está no crescimento, mas sim em encontrar um meio de subsistência. E isso, para grandes e pequenos, é sempre bem complicado. Considere-se sortudo, ou muito esperto, se você conseguiu atingir esse patamar.

19 Dec 2012