Excertos

por Rodrigo Ghedin

"A Arte de Amar", de Erich Fromm

Se o amor é uma arte, como alega Erich Fromm, é preciso compreendê-lo para praticá-lo em sua plenitude. Seu livro, de 1956, não é um manual; é, na realidade, uma abordagem maior do amor, uma visão dele como atitude:

O amor não é, primacialmente, uma relação para com uma pessoa específica; é uma atitude, uma orientação de caráter que determina a relação de alguém para com o mundo como um todo, e não para com um “objeto” de amor. Se uma pessoa ama apenas a uma outra pessoa e é indiferente ao resto dos seus semelhantes, seu amor não é amor, mas um afeto simbiótico, ou um egoísmo ampliado.

A nossa necessidade de amar, explica, vem da ansiedade em superar a experiência da separação. Aquela sensação de estarmos sós no mundo, sem um objetivo bem definido. Talvez, a ânsia de compreender o sentido da vida.

As relações humanas são essencialmente as de autômatos alienados, cada qual baseando sua segurança na posição mais próxima do rebanho e em não ser diferente por pensamentos, sentimentos ou ações. Ao mesmo tempo que todos tentam estar tão próximos quanto é possível dos demais, todos se sentem extremamente sós, invadidos pelo profundo sentimento de insegurança, ansiedade e culpa que sempre ocorre quando a separação humana não pode ser superada.

A celeridade da vida moderna é apontada como um mal da humanidade — no contexto, um empecilho à arte de amar. Fromm, como um dos representantes da Escola de Frankfurt, também rejeita o capitalismo. Diz que o modo de vida ocidental pós-II Guerra Mundial reduz as relações humanas à mercantilização e critica, já na década de 1950, a incapacidade de ficarmos sós.

Na verdade, ser capaz de concentrar-se significa ser capaz de ficar só consigo mesmo – e esta capacidade é precisamente uma condição da capacidade de amar. Se me ligo a outra pessoa porque não posso suster-me por meus próprios pés, ele ou ela podem ser um salva-vidas, mas a relação não é a de amor. Paradoxalmente, a capacidade de ficar só é a condição da capacidade de amar.

Tinha uma expectativa diferente, mais limitada, antes de começar a ler A Arte de Amar. Acabei surpreendido. É um livro fascinante que extrapola o amor romântico, que, em vez disso, aborda o amor como um sentimento universal, uma premissa para se viver bem. O que nos torna humanos, afinal.

Se é verdade, como venho tentando mostrar, que o amor é a única resposta sadia e satisfatória ao problema da existência humana, então qualquer sociedade que exclua, relativamente, o desenvolvimento do amor deve, no fim das contas, perecer vitimada por sua própria contradição com as necessidades básicas da natureza humana.

2 Aug 2014 em #críticas