Excertos

por Rodrigo Ghedin

Morretes

Tirei o fim de semana para conhecer Morretes, no litoral do Paraná. É uma cidade curiosa; próxima ao mar, mas sem praia. E bem simpática, com muitos restaurantes convidativos, arquitetura clássica e um ritmo tão tranquilo, tão gostoso, que deu vontade de passar mais tempo lá.

Para chegar a Morretes de carro, existem dois caminhos. Um pela rodovia, com um pedágio salgado, e outro pela Estrada da Graciosa, mais lento e muito, mas muito mais bonito que o descampado batido das rodovias daqui. Quando digo “lento”, é lento mesmo — estimo que a velocidade média na ida, que é mais rápida, deva ter sido de uns 30 km/h. De qualquer forma, seria um pecado se fosse de outro jeito porque o visual da serra é deslumbrante, com suas curvas sinuosas e vegetação abundante. De quebra, há uns mirantes e quiosques pelo caminho, para parar e apreciar a vista. Não tirei fotos pois estava dirigindo (P., que foi comigo, também não), então fica só a dica de, se tiver a oportunidade, fazer esse trajeto.

Morretes é famosa pelo barreado, um prato que consiste em carne desfiada, quase derretendo, misturada a arroz branco, farinha e banana. Assim que chegamos, procuramos um restaurante para, no meu caso, conhecer a iguaria. É… bem, carne de panela bastante cozida. Gostoso, mas acho que só vale comer pela curiosidade — não é nada muito diferente da carne de panela cozida que você provavelmente já comeu na sua cidade. Estando tão próximo ao litoral, talvez valha mais a pena apostar nos pescados e frutos do mar, como fizemos à noite. O barreado foi no Bistrô da Vila, um lugar bem bonito (o clima foi generoso conosco, combinando uma temperatura amena com um Sol radiante).

Há uma feirinha no coração de Morretes, à beira do rio Nhundiaquara, que corta a cidade. A maioria das barracas vende os produtos típicos de lá: bala de banana, cachaças variadas (em especial a de, adivinhe só, banana) e uns salgadinhos de mandioca, que chamam de aipim, e de, óbvio, banana. Mas o mais legal aqui são as pessoas: as que estão vendendo, as que estão comprando e as que só estão ali, à toa. Todas na rua, reclamando com seus corpos um ambiente público, comum; formando uma comunidade.

O finzinho de tarde e a noite ali me trouxeram à lembrança passagens da minha infância, quando, em Paranavaí, essa interação entre as pessoas existia — pelo menos na minha vida. Ia à casa da vó e, lá, primos e tios se reuniam, colocavam o papo em dia. Vizinhos se juntavam. Não quero soar o neoludita aqui, mas trocamos essas interações, notoriamente mais difíceis de cultivar, mas mais saudáveis, por uma variedade meio insossa — um grupo no WhatsApp ou qualquer coisa do tipo. É como trocar uma boa comida orgânica por um industrializado qualquer: sustenta, mas tão pior…

Como toda cidade antiga, Morretes, com seus 284 anos, mantém igrejas e inúmeros prédios históricos conservados. Não só: boa parte em uso, por lojas, restaurantes e órgãos públicos. Achei uma pena que do cinema tenha sobrado só a bela fachada — ele não funciona.

No domingo de manhã, andando pelo centro, vimos um cartaz na igreja anunciando a já tradicional Festa do Maracujá. Em sua quinta edição, as atrações seriam uma missa às 11h, grande almoço no salão de festas ao meio-dia e, às 15h30, bingo animado pela banda Garrafão — rigorosamente as mesmas da quarta edição, mas quem se importa?

P. topou vencer os 21 km dali até o distrito de Sambaqui (que poderia ser o nome de um grupo de pagode). A festa era idêntica às quermesses do interior, com poucas e sutis diferenças: a variedade dos pratos era maior, tinha suco de maracujá (isso e uns maracujás pendurados no teto, na entrada, eram as únicas justificativas para o nome da festa) e não conhecia ninguém (em Paranavaí, ou na sua cidade-natal, nessas ocasiões você revê gente de todas as fases da vida, até aquelas de quem já tinha se esquecido).

Ainda deu tempo de experimentar um saboroso sorvete de gengibre na volta.

Curitiba tem muita coisa legal, um leque aparentemente infinito de opções de lazer, muita gente tocando a própria vida, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É empolgante de uma maneira bem peculiar e te conquista de modo sorrateiro. Quando se tem a oportunidade de quebrar a rotina, especialmente em um lugar que é antítese da cidade grande, a gente valoriza o que tem no dia a dia, mas ao mesmo tempo percebe, meio estupefato, coisas importantes que fazem uma falta danada.

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26 Apr 2018

Eu não estou interessado em nenhuma teoria
Nem nessas coisas do oriente, romances astrais
A minha alucinação é suportar o dia a dia
E meu delírio é a experiência com coisas reais

— Belchior, Alucinação.

29 Mar 2018

Crítica ao minimalismo de palco

No feriado de Carnaval, estava vendo os vídeos da semana no YouTube e, depois de assistir aos que me interessaram, dei uma olhada nas recomendações do algoritmo. Havia um “apartment tour” de Matt D’Avella, diretor daquele documentário d’Os Minimalistas que está na Netflix.

Assisti ao vídeo e resolvi entrar no blog d’Os Minimalistas, o que há muito não fazia. A dupla continua postando coisas. Entre os posts mais recentes, li o de um curso de minimalismo ou coisa do tipo. Reparei, também, que eles seguem lançando livros e que estão produzindo mais um documentário.

No mesmo dia, assisti novamente ao documentário original e isso, somado ao blog, me deixou um pouco frustrado com essa ideia de minimalismo. Talvez ela tenha saído de controle e virado outra coisa. Uma seita? Uma ironia em si mesma?

Em 1969, Theodor Adorno foi contratado para mensurar a cultura nas rádios norte-americanas. Disse ele: “Quando fui confrontado à exigência de ‘medir a cultura’, vi que a cultura deveria precisamente ser essa condição que exclui uma mentalidade capaz de medi-la”.

Para mim, o minimalismo, ou a ideia que atrai e convence tanta gente a reavaliar o consumo e a buscar mais significado em outras coisas que não produtos, passa por algo similar. A partir do momento em que vira o centro de toda uma vida, a ideia meio que perde o sentido, pois se torna, ela mesma, algo consumível — exatamente aquilo que promete combater.

Óbvio que pode ser uma impressão equivocada, já que não tenho base alguma para sustentá-la. Confio apenas em evidências anedóticas que a embasam, como o documentário ou os blogs, ou, ainda, esses cursos.

Outras questões me deixam ainda mais desconfortável com o culto ao minimalismo. Por exemplo, o maior elefante na sala de estar (asséptica e com poucos móveis): de que se trata de uma filosofia elitista, que desconsidera e jamais oferece uma variante democrática, acessível. Você já viu um minimalista pobre propagando A Palavra?

Os Minimalistas do documentário eram executivos ricos, com salários de “seis dígitos” em um país onde a renda média anual per capita é de US$ 31 mil. Todos os entrevistados, dali para cima. Um deles se prestou a dar um relato constrangedor de quando foi convidado pelo chefe para virar sócio do escritório em Wall Street, onde trabalhava e recebia um salário de (adivinhe) seis dígitos, e, confrontado pela situação, foi para a sua sala, chorou e depois saiu do prédio para nunca mais voltar. O outro se gaba de ter apenas 51 itens em duas mochilas e viver viajando, o clássico, quase caricato “larguei tudo para rodar o mundo; você pode também!”.

Um d’Os Minimalistas diz que prefere ter poucas coisas de qualidade, como um bom moletom, do que em quantidade. Muito sagaz! Como a humanidade não pensou nisso antes? Com certeza a dona Odete, diarista, mãe de seis filhos, marido desempregado, não compra bons moletons porque é uma idiota, uma “não minimalista”.

A concepção básica de minimalismo é interessante. Ela pode ser extremamente útil para nos fazer entender que o consumismo não é o único caminho, uma barreira particularmente difícil de romper com a publicidade jogando baixo e pesado para mantê-la como norma. Foi assim para mim, em 2010, quando tive o primeiro contato.

Mas o minimalismo é isso: um chamado, apenas. Um lembrete pontual que te muda e, depois de cumprida essa missão, sai de cena deixando uma nova mentalidade capaz de mudanças reais e significativas. Só que essa característica, obviamente, não funciona no capitalismo em que os próprios Os Minimalistas (e todos esses outros blogueiros) estão inseridos, então eles sempre inventam um curso, um livro, uma abordagem ou o que quer que seja para manter a roda girando.

Imagine um curso de minimalismo em que a única lição fosse “não compre o que você não precisa”. Só isso, direto e funcional. Tipo este.

23 Mar 2018

Princípios do comportamento adulto

No dia 7 de fevereiro de 2018, John Perry Barlow, fundador da Electronic Frontier Foundation (EFF), letrista do Grateful Dead e um dos maiores cyberativistas da história, morreu. Ele tinha 70 anos.

Aos 30, Barlow escreveu uma linda lista de “princípios do comportamento adulto”. Procurei uma tradução em português, sem sucesso. Então, recorri à minha rede de contatos para que fizéssemos uma tradução colaborativa. São conselhos bons demais para ficarem inacessíveis àqueles que não entendem inglês.

Com a inestimável ajuda de Fabio Bracht, Igor Ghisi e Rogério Galindo, chegamos à tradução abaixo. Espero que lhe seja útil.

  1. Seja paciente. Sempre.
  2. Não fale mal: coloque responsabilidade, não culpa. Não diga nada sobre outra pessoa que você não diria a ela.
  3. Nunca presuma que as motivações dos outros são, para eles, menos nobres do que as suas são para você.
  4. Não se preocupe com questões que você realmente não possa mudar.
  5. Não espere dos outros nada além do que você mesmo é capaz de fazer.
  6. Tolere a ambiguidade.
  7. Ria de si mesmo com frequência.
  8. Não se esqueça de que você sempre pode estar errado, mesmo que tenha muita certeza.
  9. Abstenha-se de esportes sangrentos.
  10. Lembre-se de que sua vida pertence aos outros também. Não arrisque-a de forma leviana.
  11. Nunca minta a ninguém por qualquer motivo. Omissões, em certos casos, são aceitáveis.
  12. Conheça as necessidades dos que estão a seu redor e respeite-as.
  13. Evite a busca pela felicidade. Procure definir sua missão e persiga isso.
  14. Reduza o uso dos pronomes em primeira pessoa.
  15. Faça elogios no mínimo na mesma quantidade em que fala mal.
  16. Admita seus erros por iniciativa própria e o quanto antes.
  17. Suspeite menos da alegria.
  18. Compreenda a humildade.
  19. Lembre-se de que o amor perdoa tudo.
  20. Promova a dignidade.
  21. Viva de maneira memorável.
  22. Ame-se.
  23. Persista.

20 Feb 2018

Eu os li, contou. Por um segundo pensei que ela mentia, apesar de nunca ter mentido sobre essas coisas, nunca mentiu sobre nada, na verdade. Nosso problema foi justamente esse, que não mentíamos. Fracassamos pelo desejo de ser honestos sempre.

— Alejandro Zambra, Formas de Voltar para Casa.

16 Jan 2018

Às vezes acho que ela sente vontade de ficar, de que a vida consista nisso, nada mais. É o que eu quero. Quero fazê-la desejar uma vida aqui. Quero enredá-la de novo no mundo do qual ela fugiu. Quero fazê-la acreditar que fugiu, que forçou sua história para se perder nas convenções de uma vida cômoda e supostamente feliz. Quero fazê-la odiar esse futuro plácido em Vermont. Me comporto, em resumo, como um imbecil.

— Alejandro Zambra, Formas de Voltar para Casa.

16 Jan 2018

Breve análise de uma newsletter pessoal

Sempre que leio alguma coisa em um jornal, revista ou site, procuro saber quem estou lendo. Embora nem sempre a assinatura corresponda ao verdadeiro autor ou esteja disponível, acho um diferencial importante — e que será ainda mais quando dividirmos a bancada na redação com robôs.

Em muitos casos, coloco jornalistas e colunistas acima das publicações. Acompanho a pessoa, independentemente de onde ela escreva. É mais ou menos a ideia das redes sociais, mas livre da toxicidade e da impulsividade desses ambientes. Talvez uma comparação melhor seja com diretores, atores e autores. A individualidade, as linhas de raciocínio, os assuntos cobertos e os trejeitos da escrita se sobrepõem à publicação. (Embora haja uma relação direta; é difícil ter gente boa escrevendo em publicações ruins.)

Ao longo dos anos, sempre tentei manter contato com os leitores mais assíduos, esses que me reconhecem pelo meu texto e gostam dele. “Manter contato”, no caso, no sentido de facilitar para que eles possam me acompanhar onde quer que eu estivesse escrevendo. Já passei por algumas redações e, em mais de uma ocasião, recebi comentários e mensagens do tipo “te lia no site X e não sabia que agora está no site Y”. É, pois, um problema real.

Numa época, tentei alavancar redes sociais para esse fim (funciona mais ou menos). Antes, havia criado um feed RSS que concentrava tudo que eu fazia (mas alguém ainda usa RSS?). Ambas não se provaram boas soluções a longo prazo.

Quando deixei o Manual do Usuário para começar na Gazeta do Povo, fiz algo que deveria ter feito há muito tempo: uma newsletter pessoal. Convidei os leitores a assinarem-na mesmo sem saber o que escreveria ali; naquele momento, manter o contato era o que importava.

Um formato acabou surgindo após o envio de umas três edições sem periodicidade e desestruturadas. Então, hoje, após 26 envios semanais consecutivos e aproveitando esse clima de fim de ano, achei que seria uma boa hora para dar uma parada, analisar alguns números e refletir um pouco.

Manutenção da newsletter

A minha newsletter tem, neste momento, 241 assinantes ativos. Essa última parte é importante porque, desde o começo, estabeleci uma meta elevada para a taxa de abertura. Queria restringir a newsletter apenas a pessoas genuinamente interessadas e, ao mesmo tempo, não abarrotar a caixa de entrada dos demais.

Para isso, criei uma regra: assinante que não abrisse as quatro últimas edições no dia do envio da quinta seria descadastrado automaticamente. Das 334 pessoas que já se cadastraram, 93 foram removidas nesses cerca de seis meses, ou 27,8% — a maioria por esse critério.

Gráfico de assinantes ativos e descadastrados.

No fim, alcancei uma taxa de retenção alta, de 72,2%, com um esforço mínimo da minha parte e, importante, sem qualquer chateação para o (ex-)assinante. Nunca enviei um e-mail dando ultimato para os que me ignoravam. Eu também assino newsletters e sei que, às vezes, bate uma preguiça de ler e as edições começam a se acumular e, mesmo assim, fico com dó ou receio de perder algo, o que me faz empilhar e-mails para ler “um dia”, dia esse que, na prática, raramente chega.

O que faço é tirar esse peso do assinante. Eu puxo o band-aid por ele. E é indolor, porque sequer um aviso de descadastramento é enviado. Ele apenas para de receber as minhas mensagens. (De minha parte também é tranquilo. Não guardo ressentimento de quem foi descadastrado dessa forma, sei que todo mundo enfrenta um leão por dia e há coisas melhores ou mais importantes que a minha newsletter a serem lidas.)

Obviamente, qualquer um que deixou de receber a newsletter (por esse filtro ou por vontade própria; também existe essa opção no rodapé de todo e-mail) e quiser voltar pode refazer a assinatura como se fosse a primeira vez, sem qualquer impeditivo.

Taxas de abertura e de cliques

A taxa de abertura da minha newsletter está em 79%. Em média, cada edição foi lida por 164 pessoas de 209 envios/recebimentos.

Desconheço newsletter que tenha esse índice tão elevado. A ferramenta que uso oferece uma “média da indústria” por categoria. Na minha, que é classificada em “Hobbies”, ela é de 21,2%. Em outras palavras, a taxa de abertura da minha newsletter é quase quatro vezes maior que a média da indústria.

A edição mais lida, proporcionalmente, foi a nona, com taxa de abertura de 86,7%. Em número absoluto, foi a 16ª, com 205 leitores.

A newsletter consiste em quatro blocos: o primeiro com uma introdução/história que tenha acontecido comigo; depois, um bloco com as matérias que eu escrevi e que saíram na editoria de Nova Economia; o terceiro traz textos de outros autores que eu li e de que gostei; e o último com tweets engraçados ou curiosos. (Aqui explico melhor o funcionamento dela.)

As pessoas gostam e clicam nesses links. Em média, 99,6 delas clicam em pelo menos um link de cada newsletter, ou 48,3% de todas que as recebem. Importante notar: sem clickbaiting ou pedidos diretos para cliques.

Ia fazer a média do total de cliques em cada edição, mas esse número fica meio escondido nas estatísticas da ferramenta que uso e aí a preguiça me venceu. Apenas para dar um panorama, fiz um gráfico completo das últimas quatro:

Estatísticas detalhadas das últimas quatro edições.

Satisfação

Nunca paguei um centavo para divulgar a newsletter. Só fiz isso, basicamente, pelo Twitter. Fora de lá, coloquei uma vez o link para cadastro no meu perfil do Facebook (e focado em quem me segue, não nos “amigos”), dentro de duas matérias (salvo engano), uma na Gazeta do Povo, outra no Manual do Usuário, e neste texto no Medium para divulgá-la.

Se os números relativos impressionam, os absolutos, não muito. Qualquer canal de YouTube, perfil no Instagram ou blog pequeno alcança mais gente. A diferença, e o que me motiva a toda semana trabalhar nessa newsletter depois do expediente no jornal, é esse contato mais próximo com amigos e leitores interessados. Não é muito raro receber respostas e continuar a conversa individualmente. Isso é bem legal.

São enormes a satisfação e a responsabilidade de falar com cada uma dessas pessoas que me concederam um espaço em suas certamente abarrotadas caixas de e-mail e, mais que isso, dedicam dez minutos por semana para saberem o que estou fazendo.

Eu gosto muito do e-mail e, pela minha newsletter, vejo que existe muita gente que compartilha esse apreço. Se você gosta do que eu escrevo e ainda não assina ela, é a melhor maneira de acompanhar meu trabalho. O caminho é por aqui.

23 Dec 2017

Minha foto virou capa de álbum

Em 2010, logo depois de tirar minha então câmera nova da caixa, uma Panasonic Lumix FZ35, apontei ela para um urso gigante de pelúcia que estava tomando Sol, na casa dos meus pais, e fiz um disparo.

Depois, subi essa e outras fotos iniciais, de testes, para o Flickr. Tenho o hábito de licenciar todas as minhas fotos sob Creative Commons, o que significa que outras pessoas, empresas e instituições podem usá-las, desde que eu seja creditado. No trabalho, recorro quase todo dia a fotos de outras pessoas que as compartilham da mesma forma. Assim, retribuo na mesma moeda. É o mínimo que posso fazer. (Sem falar que, convenhamos: é pouco provável que alguém se incomodaria em pagar para usar qualquer uma delas.)

Hoje, sete anos depois, recebi uma mensagem pelo Flickr de um músico holandês chamado Ferrie=differentieel (um pseudônimo), dizendo que usou a minha foto como capa do álbum ou de uma música que ele compôs. Pelo que entendi, a música é uma homenagem a seu filho (ou filha), Maxim, que acaba de completar um ano.

Ferrie=differentieel se denomina um “músico de inteligência artificial de computadores”, ou algo assim, e, embora seja uma classificação deveras específica, de alguma forma fez total sentido quando ouvi a canção, Max One, ilustrada pela minha foto do ursão.

Veja que legal ficou:

Capa do álbum Max One.

3 Dec 2017

31

“Essas grandes movimentações — trabalho, formação — tomam tempo, então me parece surpreendente, revendo o que passou, o tanto de novidades que eu tinha uns anos atrás nos intervalos entre eles.”

Escrevi o trecho acima há exatamente um ano apenas para, hoje, me contradizer: estou morando em outra cidade e trabalhando em outro lugar, duas das maiores movimentações que podem acontecer com alguém. Também passei por grandes mudanças no não fazer. Estou sem estudar formalmente, algo meio raro nesses 31 anos — passei apenas cinco deles fora da escola ou de uma universidade.

O último ano foi agitado, e não por dilemas ou crises que essas viradas de década costumam (dizem) desencadear nem só pelas mudanças de endereço, acadêmica e profissional. No geral, tive pouco tempo para pensar em questões existenciais, o que pode ser encarado como um sinal de que a vida está acontecendo. Mas, melhor que isso, esse período foi bem ocupado e distribuído. Comigo mesmo, com as muitas pessoas novas que tive o prazer de conhecer e com aqueles que já faziam parte da minha vida e continuam, apesar da distância. Mesmo fora da universidade, aprendi bastante. Diverti-me muito também. Foi um bom ano.

Ao mesmo tempo em que me sinto satisfeito, preocupa-me o entorno. Ano passado, escrevi que a Internet precisava ser revista. Foi um comentário presciente de tal forma que estaria mentindo se dissesse que tinha ideia do que estava por acontecer e do papel que ela teria nesse delírio coletivo em que nos metemos. Está sendo pior do que qualquer um poderia imaginar, mas sou otimista e acho que tem jeito. Só não sei como.

Voltando ao meu umbigo, acho que a única coisa que negligenciei foi no cuidado com meu corpo. Retornei ao sedentarismo, no começo do ano pela correria das mudanças, mas, depois, instalado e adaptado à nova vida em Curitiba, continuei apegado àquela desculpa que já não colava mais. Preciso voltar a fazer alguma coisa.

De resto, continuar nessa levada seria ótimo. Os meus trinta foram bons, estáveis: sem sustos, mas com surpresas agradáveis e muitos momentos felizes. O que mais alguém pode querer?

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28, 29 e 30.

8 Nov 2017

Mother

Mãe! (Darren Aronofsky, 2017).

7 Oct 2017