Excertos

por Rodrigo Ghedin

Mother

Mãe! (Darren Aronofsky, 2017).

7 Oct 2017

Pica-Pau

Passei a sexta-feira de molho, acometido por uma inflamação na garganta. Restou-me pouco a fazer, então vi uns desenhos do Pica-Pau. Ok, minto: vi muitos desenhos do Pica-Pau.

Notei alguns aspectos que nunca me ocorreram na infância. Por exemplo, duas tentativas de índios, em episódios distintos, de escalpar o Pica-Pau com um machado. Caso lhe fuja o significado, “escalpar” é retirar a pele que recobre o crânio. Sem falar nos tiros, nas mortes, crossdressing e na moral dúbia (para dizer o mínimo) de todo mundo ali. Tem material suficiente para o MBL promover uns três ou quatro “boicotes”.

O Pica-Pau clássico é um desenho doentio equivocadamente indicado para crianças. É isso o que o torna tão divertido (para adultos!) mesmo após 50 anos, mas é errado demais para ser consertado mantendo sua essência. O péssimo remake de 1999 é uma prova e o filme, previsto para esse ano, deve ser outra, a definitiva, dessa impossibilidade.

24 Sep 2017

Concreteworld

Vez ou outra algumas assessorias nos convidam para encontros ou almoços. Elas fazem isso para que seus clientes tenham a oportunidade de se apresentarem adequadamente e falarem dos seus produtos ou serviços. Bater um papo, basicamente. Quase sempre são encontros agradáveis e proveitosos.

Quarta-feira tive um desses, com o CEO e o cara do marketing de uma empresa de segurança digital de Curitiba. Marcamos num restaurante no Juvevê, um bairro próximo ao Centro, que é onde fica a redação da Gazeta do Povo. Fui a pé, observando a mudança gradual da paisagem.

Os centros das cidades costumam ser cinzas, sem muitas árvores. Fui mal acostumado nesse aspecto, porque no interior do Paraná não é assim, especialmente em Maringá onde há muitas árvores em todo lugar — com exceção do Novo Centro, que parece um enclave do Oriente Médio no meio da cidade. Mas aqui e em São Paulo, as que conheço mais ou menos, é notável a falta de natureza na região central.

Essa ausência, para mim, é uma daquelas que fazem falta e que só se percebem na prática. Como o Sol. (Os últimos dias, atipicamente ensolarados aqui, têm sido agradáveis.) Por não ter o hábito e nem condições, devido aos meus horários, de andar por outros bairros durante o dia, aquele trajeto para o almoço da última quarta foi quase como redescobrir a cidade. Vi que existe uma Curitiba mais verde e aconchegante; mais bonita.

Pelo contrato com a imobiliária, terei que ficar onde estou por mais alguns meses. Enquanto preso em uma região menos arborizada, tenho tentado amenizar essa carência deixando o interior do apartamento mais verde.

Nunca havia cultivado plantas. Já tenho uma palmeira média (~1,5 m) e alguns temperos plantados num vaso que deixo sobre o balcão da cozinha. Águo todas as plantas dia sim, dia não, tento posicioná-las para pegar o Sol fraquinho do fim de tarde e lembro sempre de abrir as janelas para fazer circular o ar.

Sou quase o personagem do Kevin Costner em Waterworld, mas o meu filme seria algo como “Concreteworld”.

Desde que saí da casa dos meus pais, nunca mais morei em casa — sempre em apartamento. Acho mais prático e seguro. Mas lidar com a terra (comprada em um saquinho, mas vá lá), colher manjericão e cebolinha frescos enquanto cozinho, cultivar as plantas… tudo isso tem feito eu refletir sobre onde quero morar quando chegar a hora de me fixar num endereço. De repente, estar mais próximo do chão e ter um quintal à disposição para plantar passou a ser um aspecto importante.

29 Jul 2017

O que acontece quando um tweet viraliza?

Aconteceu algo inusitado: um tweet meu viralizou. No momento em que escrevo isto, ele já passa de 1200 retweets e pouco mais de 1500 curtidas. Foi algo que me pegou de surpresa. Nunca tinha acontecido e imagino que não seja um fato tão corriqueiro, então achei que seria uma boa relatar a experiência.

A primeira sensação é o susto. Não sei você, mas já tinha pensado no que faria se, do nada, algum perfil meu em rede social começasse a bombar sem eu saber. Foi mais ou menos isso o que aconteceu.

Publiquei aquele tweet pouco antes de sair da redação. Vim para casa, tomei café, estava à toa no sofá quando resolvi dar uma olhada no Twitter. A aba de notificações marcava “36”, o que me deixou intrigado. Quando publico algo e passo o dia longe do Twitter, é raro chegar a 20 no acumulado. Fui verificar e vi que o tal tweet já tinha mais de 300 retweets.

Nos dois ou três dias seguintes, a aba de notificações ficou imprestável. A menos que eu filtrasse elas por menções (ou usasse o Tweetbot), perderia facilmente replies. Mas é tanta notificação, o tempo todo, que a sua atenção satura. Em determinado momento, passei a ignorar aquele número ali em cima. Não fazia sentido.

O tweet teve, até agora, 151 mil impressões e 25,8 mil “engajamentos”, número que engloba basicamente qualquer coisa que outras pessoas façam com o tweet. Desses, 98 foram cliques no meu perfil. É uma métrica interessante porque pode durar se ganhar novos seguidores. Porém, desde que o tweet foi publicado, apenas 15 passaram a me seguir, e nem posso cravar que foram todos decorrentes dele. Ser um “one hit wonder” no Twitter não compensa.

Se você tem problemas com números quebrados, tome este presente:

4999 seguidores

Outra coisa curiosa que aconteceu foi um print do meu tweet sair na página Ajudar o povo de humanas a fazer miçanga. A repercussão nos círculos mais próximos foi grande. Família e amigos repararam e comentaram, e até gente com quem há muito não conversava veio falar comigo sobre o post.

Nunca uma matéria minha teve uma “repercussão interna” tão forte, o que me deixou um pouco deprimido. Mas tudo bem. Se eu quisesse ser famoso, não seria jornalista, né?

8 Jul 2017

Em vez do Facebook, uma newsletter

A primeira coisa que Richard Stallman pede, em suas palestras, é para que os presentes que tirarem fotos não as enviem para o Facebook, Instagram ou WhatsApp. A justificativa é de que ele não quer contribuir com mais matéria-prima para que serviços que não respeitam a privacidade do usuário continuem crescendo.

Muita gente acha Stallman louco. Talvez seja, mas ele está certo. Não só nesse ponto, mas especialmente nele. O Facebook não nasceu do jeito que é, nem com o alcance que tem. De alguma forma, ele conseguiu convencer quase que literalmente meio mundo a fazer dali a central de distribuição de novidades, o jornal do millennial, a nova praça pública — lugar onde todos falam e poucos param para ouvir.

É como se o Facebook tivesse entrado com uma panela muito bonita e um fogão industrial de altíssima qualidade, no melhor ponto da cidade, e, nós, com os ingredientes. Deu num caldo pouco nutritivo, mas acessível, que serve muito bem ao negócio do dono das panelas e que deve conter doses desaconselháveis de açúcar — porque só isso explica ele ter se convertido em um vício tão forte para tantos de nós.

Criticar o Facebook é, com frequência, um discurso hipócrita. Diferente do Stallman, eu tenho uma conta e meu trabalho depende, em parte, da distribuição que se faz por lá. Escrevo meus textos, ganho umas curtidas após compartilhá-lo no Facebook e, vez ou outra, novos leitores. No processo, dou mais ingredientes fresquinhos para o Facebook continuar fazendo o seu caldo super calórico.

Seria quixotesco propor uma ruptura a esse modelo. Não funciona assim, não é da noite para o dia e tem muitas variáveis envolvidas. O que quero propor, aqui, é algo mais humilde, condizente com o alcance que eu e esse blog temos: em vez do Facebook, uma newsletter.

A web ainda é nossa, é aberta e sem filtros. Prefiro publicar coisas aqui do que no Facebook, ou minhas fotos neste site que eu fiz em vez do Instagram.

Seu e-mail, idem. Ele é seu e ninguém mexe no que está ali dentro. Nele, chega o que você quiser, sem filtros ou ruído. O filtro, na realidade, é você.

Newsletters são legais. Você assina elas em um site como este, na web aberta, e recebe mensagens periódicas em seu e-mail, sem filtros escusos regulando esse caminho. Quando não quiser mais, basta cancelar o recebimento. Simples, direto e funcional.

Eu tenho uma newsletter. Até agora, não sabia muito bem para que usá-la, mas tive esse lampejo e acredito que ela possa servir de ponte entre tudo o que faço e as pessoas minimamente interessadas. Uma alternativa a redes sociais e outros ambientes filtrados e hostis à privacidade.

Se você é uma dessas pessoas interessadas, assine a minha newsletter.

Ainda existe vida aqui fora.

9 Jun 2017

Fossem meus os tecidos bordados dos céus,
Ornamentados com luz dourada e prateada,
Os azuis e negros e pálidos tecidos
Da noite, da luz e da meia-luz,
Os estenderia sob os teus pés.
Mas eu, sendo pobre, tenho apenas os meus sonhos.
Eu estendi meus sonhos sob os teus pés
Caminha suavemente, pois caminhas sobre meus sonhos.

— William Butler Yeats

24 May 2017

Eu, Sarah e a Samsung

Há dois anos, recebi um e-mail promocional da Samsung com o seguinte assunto: “Sarah, participe da Promoção Samsung Galaxy Vingadores.” Várias interrogações surgiram na minha cabeça. Por que a Samsung acha que eu me importo com Vingadores? Como meu e-mail foi parar lá? E, a mais importante: quem é Sarah?

Eu ainda não sei, mas achei aquilo tão deslocado, tão inusitado, que gostei. Tal qual o suposto Criador, a Samsung (ou a agência que eles contratam) escreveu certo por linhas tortas: um e-mail promocional, que seria solenemente ignorado, por um motivo totalmente alheio ao daquele o enviou deixou um (não-)cliente satisfeito.

Como meu e-mail chegou lá, vá saber. Talvez ele esteja em um banco de e-mails, desses vendidos por R$ 10 no camelô, com o nome trocado. Outra hipótese é a de que alguma Sarah Ghedin errou seu próprio e-mail no cadastro (as pessoas às vezes se submetem ao recebimento desse tipo de coisa) e, sem querer, me colocou em um mailing que proporciona pequenas alegrias recorrentes de total nonsense virtual.

Ah sim, porque aquela mensagem não foi a única. Quando recebi a primeira, tirei um print, postei no Twitter e a apaguei. Vida que segue. Mas, algumas semanas depois, chegou outra. E elas continuaram. Eu estou em um mailing da Samsung com o nome “Sarah.”

Fora de contexto, as mensagens são divertidíssimas. É quase como se a Samsung estivesse genuinamente preocupada com o meu desenvolvimento (ou o da Sarah) enquanto ser humano pela via esotérica, o que fica ainda mais esquisito se pensarmos que a ideia primordial ali é só vender celulares e outras bugigangas. Alguns exemplos:

“Sarah, sua vida fica muito mais interessante com novas experiências.”

“Sarah, viva novas experiências e cause o efeito que você desejar.”

“Sarah, se você estava esperando um bom motivo para fazer o seu mundo girar, prepare-se: o momento é agora.”

“Sarah, descubra um universo de possibilidades.”

Vez ou outra, o manto do storytelling-isso-é-CONTENT cai e o e-mail marketing mostra a sua verdadeira face, sem qualquer pudor:

“Sarah, quer dar um upgrade no seu smartphone? Aproveite esta promoção imperdível que a Samsung preparou para você.”

Descobri que Sarah faz aniversário no dia 8 de maio. “Sarah, comemore conosco!,” convidou a Samsung, por e-mail, ano passado. Que surpresa será que a empresa está preparando para amanhã?

Também me ocorreu que talvez a Sarah tenha se cadastrado nesse mailing porque ela queria mesmo saber dos lançamentos e das promoções da Samsung. Nessa linha do tempo, Sarah é uma cliente fiel: ela tem celular da Samsung, TV da Samsung, micro-ondas da Samsung, máquina de lavar da Samsung. E ela quer mais, porque… ora, Samsung! Se for o caso, sinto muito por ter, mesmo sem culpa, atrapalhado a devoção da Sarah a eletrodomésticos sul-coreanos e afetado o faturamento da Samsung.

Aquela mensagem, a dos parabéns, reforçou a hipótese de que alguma Sarah errou o cadastro e direcionou os e-mails da Samsung para mim. Procurei por ela no grande diretório de seres humanos (Facebook). Existem algumas. Até mandei mensagem para uma, mas não tive resposta.

E está tudo bem. É uma bobagem de nada, mas sempre esboço um sorriso quando a Samsung me chama de Sarah, por e-mail, tentando vender celulares com mensagens motivacionais. Obrigado, Samsung, e feliz aniversário, Sarah!

7 May 2017

Até logo, Maringá

Bloco E34 da UEM.

Tenho comido muito lanche nos últimos dias, desses prensados na chapa. Não sei se é algo exclusivo do interior do Paraná, mas sei que Maringá é pródiga em bons lanches do tipo. E, pela ausência de referências curitibanas a ele, aproveitei enquanto pude antes de me mudar para a capital.

O lanche prensado é uma das muitas coisas de que sentirei falta de Maringá. A quem vê de fora, a cidade é um paraíso bastante quente: constantemente no topo de listas das melhores para se viver e detentora de altas temperaturas nos serviços de meteorologia. É, sim, uma cidade onde faz muito calor. Também, uma sensacional, independentemente do que lhe diga qualquer maringaense — falar mal daqui é um esporte popular entre os nativos.

Maringá não é perfeita, claro. A violência tem aumentado. Assaltos na porta de casa (e dentro dela) são recorrentes. O jeitinho de cidade interiorana, que muito me agrada, tem outro lado um tanto perverso, calcado num conservadorismo exagerado que, mesmo com toda a diversidade que permeia a cidade, parece dar-lhe o tom e, com frequência, recai em discriminação e outras situações chatas, para dizer o mínimo.

Há espaços para melhorar. Mas mesmo sem tê-los preenchido ainda, Maringá acolhe bem as pessoas. Ou talvez seja a UEM, não sei. Só sei que dei sorte de cair num lugar que borbulha ideias e que fez com que eu me conhecesse melhor. Nesses quatro anos que passei aqui, ganhei, além do diploma de comunicólogo, uma formação humanista, contato com gentes novas e diferentes, amigos que não poderiam ser melhores e uma nova perspectiva, de maior valorização, da família e das outras pessoas com quem já convivia.

Sentirei falta da UEM. Mesmo em uma fase difícil, sucateada e ameaçada, a universidade se sustenta como algo ímpar. É uma pena que se valorize tão pouco um ambiente tão rico de ideias e pessoas. Fico imaginando o que seria dela com mais investimento e atenção. Divago.

Se a nova fase em Curitiba for tão boa quanto a maringaense, ficarei satisfeito. Tudo indica que será. Foi por tal expectativa que aceitei uma proposta que, hoje, me leva para longe dos que mais amo, minha família e meus amigos, e de uma cidade onde me adaptei tão bem e me sinto confortável.

A todos que tive o privilégio de conhecer aqui, de rir junto, de ajudar e receber ajuda, de amar, muitíssimo obrigado. Isso não é um “adeus”, é apenas um “até logo”. Então, até logo!

30 Mar 2017

Eu (re)fiz um blog

Estava insatisfeito com este blog no WordPress. Sabe quando você exagera na dose ao resolver um problema? A solução funciona, mas parece tão… inadequada para o problema que passa a ser, ela própria, um incômodo. Era assim que me sentia com o WordPress para publicar essas poucas palavras esporádicas num blog que leva o meu nome.

Então, comecei a buscar por alternativas. Sistemas de blogs estáticos eram a solução mais óbvia. O WordPress é um gerador de sites dinâmico. Funciona, mas é um exagero para isto aqui. Na prática, ser um sistema dinâmico significa que cada vez que alguém acessa um post, o pedido do navegador ao servidor por uma cópia desse post desencadeia todo um processo interno que envolve um banco de dados e outras ações de que não convém falar. Tudo para entregar umas poucas linhas de texto. É um exercício enorme e quase sempre injustificado.

Um sistema estático, por outro lado, é só um monte de arquivos, como esses que você salva no seu computador, colados num template e servidos assim, “crus”, do jeito que foram escritos. Ele não tem sequer uma área administrativa, um painel web onde se escreve os posts. Para publicar alguma coisa aqui, eu escrevo o post em qualquer editor de textos no meu computador, salvo o arquivo e faço um commit no GitHub.

Pois é, eu também ficava travado nessa parte de “fazer um commit no GitHub”. Tentarei explicar mesmo não dominando esse negócio.

Desde que tomei conhecimento dos sistemas estáticos, há uns quatro anos, era a parte do GitHub que me impedia de brincar com eles. O GitHub é um sistema muito popular entre programadores. Ele permite gerenciar versões de códigos e receber colaborações de outros programadores, mantendo tudo registrado, organizado e facilmente recuperável. Eu uso ele, na verdade só o básico do básico, para manter o layout do Manual do Usuário atualizado. Usar o GitHub para gerar um blog estático não é muito diferente, mas até sacar as nuances que distinguem as duas atividades foi um sofrimento, potencializado por tutoriais muito ruins que o buscador retorna aos desesperados ignorantes em busca de uma luz.

De qualquer modo, após bater bastante a cabeça na parede, deu certo. Criei o blog localmente com o Jekyll, o sistema estático que escolhi; importei o conteúdo do finado WordPress para ele; fiz o template, aí criei meu blog no GitHub Pages, que é gratuito e resolve bem para algo despretensioso como é o meu caso; por fim, direcionei esse domínio bacana, ghed.in, para lá. Depois acabei ativando o Cloudflare, uma CDN gratuita, para ter um certificado SSL (o cadeado de site seguro, o que garante que nenhum bisbilhoteiro saiba que você esteve visitando este blog).

O mais legal, e isso era uma meta pessoal, é que este blog não emprega uma linha sequer de JavaScript. Essa linguagem, diferentemente de outras como o PHP, roda localmente, no próprio navegador. Ela serve para uma infinidade de coisas, de registrar a sua visita aos sites (e monitorar seus hábitos de navegação por eles) a criar efeitos especiais nas páginas. Em muitos casos, é usada em excesso, o que gera dois inconvenientes: aumenta o tempo de carregamento e o consumo de dados e aumenta as chances de um site quebrar ou funcionar erroneamente. Não preciso de nada disso aqui.

Ao visitar este blog, você não deixa nada para trás e eu peço pouquíssimo em troca. Em posts sem imagens, como este, míseros 10 kB de tráfego — apenas como referência, um tweet besta como aquele meu do “vou beber água” exige 2,34 MB, ou 2285 kB por três palavras. Ah, e também alguns minutos do seu tempo, se ler tudo até o final. Eu realmente não acho que o que escrevo aqui tenha lá muito valor, então exigir mais do que isso seria (olha o termo aí de novo) um exagero.

No mais, gosto desse visual espartano, utilitário. Deixei apenas o básico, o essencial para que você me leia. Nada além, nada aquém. Estou restaurando os posts antigos aos poucos, um a um, manualmente. Nesse trabalho, aproveito para revisar os erros (gramaticais, ortográficos e da minha cabeça). Está sendo legal revisitar coisas que escrevi há dez anos. As que sobraram daquela época, pelo menos.

Se quiser ser avisado dos futuros posts, o que é uma boa já que não tenho ideia de quando escreverei aqui novamente, assine o feed ou esta newsletter que acabei de criar só para isso. E obrigado pela sua atenção!

14 Feb 2017

30

Em todos os anos anteriores, sempre tinha algo em mente sobre o que escrever aqui no dia do meu aniversário.

Hoje, não.

Estou bem, obrigado, fazendo meio que as mesmas coisas em que estava metido há um ano. Essas grandes movimentações — trabalho, formação — tomam tempo, então me parece surpreendente, revendo o que passou, o tanto de novidades que eu tinha uns anos atrás nos intervalos entre eles.

De novo e significativo, talvez, apenas como tenho encarado o meu papel no mundo. As pessoas que afeto e de que maneira, as questões que estão ao meu alcance avançar e as que não, o que, afinal, me importa ou me impacta. Idealmente, é uma transformação constante e que, talvez por isso, nos passe despercebida. O que me chamou a atenção, nesse último ano, foi a celeridade dela e percebê-la em curso.

Entre essas transformações, está bem forte em mim a de que a Internet precisa ser revista. Eu não sou um nativo digital; passei pela transição de um mundo offline para um que não se desliga jamais. O deslumbramento em testemunhar tal mudança demorou a passar. Agora é hora de colocá-la em perspectiva. Já passou da hora, aliás.

Na prática, e é possível que isso seja mais um desejo descompromissado do que uma meta (porque dessa forma perderia o sentido), quero tirar (ainda) mais os olhos das telas e ter mais contato com o mundo material. Diminuir as camadas de abstração. Machucar-me, se preciso — “curtidas são para covardes, busque o que machuca”, escreveu Jonathan Franzen.

Pode parecer que o timing é errado, ante a iminência da realidade virtual e outros simulacros, alguns nos quais já estamos afogados. E ainda mais vindo de alguém que escreve sobre tecnologia! Gosto de pensar, porém, que por essas circunstâncias faz mais sentido o interesse pelo que vem de fora. Pelo que vem do passado, por aquilo que não dialoga diretamente com a tecnologia, mas que tem muito a dizer e a ensinar àqueles que estão nessa.

(Mais cedo, recebi a ligação de um robô querendo me desejar feliz aniversário. Ele perguntou duas vezes se era hoje mesmo, eu respondi que “sim”, ele não conseguiu entender. Fiquei sem meu parabéns robótico.)

Há cinco anos, comparei-me a uma folha em branco. Não a vejo, hoje, muito preenchida, mas abrir aquele espaço me trouxe oportunidades bem legais e permitiu um crescimento que de maneira alguma poderia antecipar. Com vários ciclos prestes a se encerrarem, espero que o início dos trinta se revele outra folha em branco. E se na próxima meia década eu passar por tantas transformações quanto as que passei na última, já serei bastante grato.

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28 e 29.

8 Nov 2016