Excertos

por Rodrigo Ghedin

Dia de figurante

Soube que um time de futebol argentino veio a Curitiba jogar contra o Atléthico (agora tem esse “h” no meio) por um campeonato que não me interessou muito saber qual era.

Na quarta, dia do jogo, fui malhar depois do almoço e já de saída notei pessoas com camisetas nas cores azul e amarelo. Depois, em uma churrascaria no caminho, reparei em uma mesa enorme cheia de homens de meia idade com camisas azuis e amarelas bebendo cerveja. Coincidência? Não. Eram todos torcedores que saíram da Argentina no meio da semana para assistirem a um jogo de futebol em outro país.

Senti-me como se fosse um figurante no filme da vida deles. Uma sensação rara. O nosso ponto de vista normalmente é egoísta: a gente sempre se acha protagonista de todas as situações, mesmo naquelas em que seríamos apenas um figurante não creditado, como quando ficamos em um canto num lugar onde não conhecemos ninguém e ao qual não fomos chamados. Fossem as cenas do parágrafo anterior um filme completo, eu teria sido um mero figurante.

Quando viajo, parece que a sensação de ser o protagonista da vida se intensifica. Afinal, estou longe de casa, fora da rotina, vendo a vida (dos outros) passar. O garçom que me atende no café, a recepcionista do hotel, os motoristas de aplicativos e, evidentemente, o cara de cabelo estranho e roupa de academia que passa na calçada do restaurante onde aguardo meu pedido em um horário em que, estivesse em casa, já teria almoçado, feito a “siesta” e voltado ao batente. Ou sendo eu aquele cara estranho que vai à academia logo após o almoço — pois o momento mais vazio do dia e uma das grandes vantagens de não ter que bater cartão é fazer os seus próprios horários.

28 Jul 2019

Toalhas novas

Enquanto sociedade do consumo, desenvolvemos uma espécie fetiche pelo novo. Espremer um tubo de pasta de dente pela primeira vez, abrir a caixa de um celular novo, exibir-se em uma roupa nova. Talvez não haja manifestação mais escancarada dessa obsessão que o sucesso dos vídeos de “unboxing” no YouTube.

Não nego que também gosto. O último luxo que me dei foram toalhas de banho novas. As minhas já estavam bem gastas, então usar as novas foi quase como redescobrir a experiência mundana de enxugar-se após o banho. É muito bom!

Ao mesmo tempo, foi com algum pesar que me livrei das toalhas antigas, já encostadas para, em breve, virarem panos de chão. Não se trata de criar um vínculo afetivo, o que a psicologia chama, no caso das crianças, de “objetos de transição”. Nem avareza, porque se sim as teria substituído pela opção mais barata da loja de departamentos, o que não ocorreu.

Em algum momento do passado caiu a ficha da finitude dos recursos e de como tudo que consumimos aumenta o nosso débito com a natureza. Vez ou outra penso que dou muita atenção a isso porque até coisas minúsculas, como ter que comprar outra pinça porque a minha sumiu — uma história real! —, me incomodam. Parece pouca coisa, é pouca coisa, porém veja: é uma pinça a mais produzida por culpa exclusiva da minha negligência. Completamente evitável.

Em paralelo a essa revelação, descobri um tipo de prazer menos eufórico, mais satisfatório no que me é familiar e no uso pleno dos produtos que já tenho. Imaginar um celular novo me remete aos transtornos de ter que migrar meus dados, configurá-lo do jeito que eu gosto e adaptar-me às suas particularidades. Gosto do meu, estou satisfeito e, sinceramente, não preciso de outro só porque a tela é maior/tem menos bordas ou a câmera é supostamente melhor. Isso vai desde esses produtos que levam mais tempo para serem trocados até os alimentos perecíveis. Tenho aperfeiçoado a logística doméstica a fim de evitar que a comida estrague, uma postura que contempla, também, o aumento da tolerância a alimentos que parecem passados, mas que ainda estão bons. (Uso como termômetro para não virar uma lixeira humana o fato de que não tenho recordação de intoxicações alimentares recentes derivadas de experiências mais ousadas nesse sentido.)

Naquela newsletter dos potinhos de temperos reclamei que ser ambientalmente consciente era trabalhoso, mas esse estilo de vida também tem um lado prazeroso, de que, mesmo fazendo pouco, você está fazendo alguma coisa. Uma espécie de contentamento.

No mais, espero que as minhas toalhas novas durem bastante.

21 Jul 2019

Panela de pressão

Nos últimos anos reduzi meu consumo de leguminosas a basicamente quando como fora. Longe de não gostar, é que nunca havia mexido com panela de pressão e tinha medo de explodi-la na tentativa de cozinhar um feijão.

Patético um adulto de +30 anos com medo de uma panela? Certamente. Até tentei achar algum dado que atenuasse a minha situação ridícula, mas “explosões de panelas de pressão” sequer figura na lista de principais causas de morte da humanidade. Acho que todos devemos um reconhecimento à engenharia das panelas de pressão e à diligência de cozinheiros e cozinheiras no mundo inteiro.

A preguiça também teve um papel relevante nesse atraso. Era apenas uma questão de entender a lógica da panela de pressão a fim de evitar o desfecho dramático da explosão. Aprendi, afinal, que desde que eu não a esqueça no fogão, estarei a salvo.

Pois bem: na última segunda-feira (24), tornei-me uma pessoa capaz de cozinhar alimentos na pressão! Aprecie o meu primeiro feijão cozido:

Feijão cozido.
Um almocinho vegano caseiro para começar bem a semana.

Passou um pouco do ponto e/ou deixei muito tempo na água de um dia para outro, o que resultou em pouco caldo e alguns grãos esbugalhados. Apesar disso, ficou gostoso. É o que importa, certo? E também uma falha relativamente simples de corrigir nas próximas oportunidades, que, agora que dominei a panela de pressão, pressinto que serão frequentes.

Agradecimentos às pessoas pacientes e compreensíveis que possibilitaram esta vitória em minha vida — P. e minha mãe.

30 Jun 2019

Persona

Guerra fria (Pawel Pawlikowski, 2018).

26 May 2019

Persona

Persona (Ingmar Bergman, 1966).

5 Apr 2019

Cinema de rua

Quinta-feira passada (28/3), a prefeitura de Curitiba inaugurou um cinema de rua municipal no Centro, o Cine Passeio. Estou ansioso para conhecê-lo!

A inauguração do Cine Passeio me trouxe à memória as primeiras vezes em que assisti a filmes no cinema. Foi em um de rua também, o Cine Aston em Paranavaí (PR), inaugurado no início dos anos 2000.

A cidade estava há quase uma década sem ter um cinema. Na época, fiquei bastante empolgado com a novidade, mas por falta de referências e de entendimento da importância de se ocupar os espaços públicos, não compreendia o quão legal era ter um cinema do tipo, fora de um shopping.

Foi no Cine Aston que assisti pela primeira vez a um filme na tela grande: Harry Potter e a Pedra Filosofal, uma estreia meio morna mesmo no auge da minha adolescência e do fascínio pelos livros do bruxinho. Tudo bem, porque muitos outros vieram depois dele. Ia bastante ao cinema naquele período — em algumas fases pontuais, semanalmente. Com amigos, com as minhas irmãs, em galeras enormes, a encontros — a um só, na real, onde dei meu primeiro beijo na minha primeira namorada.

O Cine Aston ficava em uma rua que, já na época e até hoje, concentra alguns dos parcos restaurantes de Paranavaí. As calçadas ficavam cheias antes e depois das sessões e, por ser uma cidade pequena, era fácil topar com conhecidos. Muitas vezes chegava mais cedo para garantir um lugarzinho na sala; sessões lotadas eram comuns no início da operação. Em uma cidade tão carente de entretenimento, ganhar aquele cinema foi bom demais.

Cerca de uma década mais tarde, Paranavaí ganhou outro empreendimento digno de cidade grande: um shopping. O Cine Aston migrou para lá e a velha fachada de rua ficou abandonada, caindo aos pedaços.

Fachada do Cine Aston
Fachada do Cine Aston de rua, já há alguns anos abandonado, tirada em 2014.

31 Mar 2019

Persona

Nós (Jordan Peele, 2019).

26 Mar 2019

32

Nos meus 31, aprendi bastante coisa. Acho que melhorei como profissional ao mesmo tempo em que ter a perspectiva do jornalismo ampliada por estar onde estou me fez ver que não sei muita coisa. Há pouquíssimas desvantagens em estar cercado de pessoas queridas e que desejam somente o teu bem; uma delas é se deixar levar pelos elogios, mesmo que sinceros. Eles aquecem a alma e dão força para continuar, mas são inerentemente suspeitos.

Também aprendi a me conformar e a desistir das batalhas perdidas já na largada. A resistir de maneiras inventivas ou das que forem possíveis. A pesar melhor os prós e contras das situações complexas do cotidiano de uma maneira mais ponderada — ou covarde, dependendo do humor do dia.

Estar distante da família e da maioria dos meus amigos fez com que eu olhasse mais ao redor. Há anos escrevo aqui que anseio por me abrir mais, por conhecer-me melhor e o mundo que me cerca. Tive muito disso e, em vários momentos, doeu. O mais assustador é que senti dor mesmo quando, em linhas gerais, a minha vida estava estável. Quando penso nisso, falar em “dor” soa quase como que a uma ofensa àqueles que enfrentam leões muito mais ferozes que os meus. É inevitável, porém — mesmo meio mansos, os meus continuam sendo leões. Talvez o maior mistério da vida seja como a gente a aguenta.

Voltei mais ao interior. Senti saudade. Não sei se do conjunto de circunstâncias do tempo e espaço de quando vivi lá e que jamais se repetirá ou se das pessoas, dos lugares, dos pormenores isolados. Um dia espero poder descobrir, mas não agora.

Tenho manifestado, ao longo dos últimos anos, um desconforto crescente com a internet. Afastei-me de redes sociais, mas ainda leio e assisto a muita coisa ruim, gastando um tempo que poderia ser melhor usado para fins mais construtivos. As pessoas estão mais violentas aqui, talvez pelos ambientes que fomentam esse comportamento. O clima está péssimo. Estou ressentido de ter apostado tanto em um negócio que faz tão mal.

Daquelas “grandes movimentações” só tive uma: após muito tempo sozinho, voltei a namorar. Estar sozinho, nesse sentido, nunca foi um problema e creio que foi esta paz comigo mesmo que me permitiu, quando P. apareceu, reconhecê-la e apreciá-la. Sou muito grato a ela.

Meu corpo já não é mais o mesmo e a negligência com que o trato começou a cobrar um preço. Por isso, uma das metas para a nova idade é levar o cuidado com ele a sério. Nesta semana, matriculei-me em uma academia de ginástica pela primeira vez na vida.

Outras metas menores consistem em abdicar do carro, outra tecnologia que tem me estressado, e continuar reduzindo o uso de internet, contribuindo mais para o silêncio digital. E quando eu quiser falar, preferir canais mais saudáveis — como este blog e a minha newsletter.

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30 e 31.

8 Nov 2018

A lição do meu pai

Quando era mais novo, ficava intrigado com a capacidade que meu pai tinha de me dar uma bronca e, dali a alguns minutos, se dirigir a mim para falar qualquer trivialidade ou pedir alguma coisa. “Eu ainda estou bravo com você!!”, pensava enquanto o ouvia, incrédulo.

Não levo mais broncas. Em compensação, ao longo dos anos passamos a discordar bastante dos mais variados assuntos. O que não é necessariamente ruim. Acho que uma das principais funções dos pais é dar espaço aos filhos, deixar que eles sejam expostos a ideias que confrontem as recebidas em casa. “Doutrinação ideológica” é blindar alguém contra pensamentos diferentes do teu, afinal.

Mesmo com visões de mundo distintas, nossa relação sempre foi respeitosa e amorosa — não por isso, pela discórdia, mas ela até melhorou com o passar do tempo. Talvez seja a maturidade, talvez eu tenha cultivado sem perceber, pelo exemplo, aquela virtude dele de separar a obra do artista, ao menos em relação a mim.

Seria legal ver mais disso por aí, fora das famílias nucleares e dos amigos do peito, dos “nossos”. A esse dever me incluo também, porque o mundo está maluco e, com frequência, tenho me pego irritado com pessoas, não com ideias. (Embora existam pessoas e ideias que são, em essência, ruins, mas divago.) Porque se fôssemos usar como régua a moral que julgamos ideal, não sobraria ninguém — nem nós mesmos.

12 Aug 2018

Morretes

Tirei o fim de semana para conhecer Morretes, no litoral do Paraná. É uma cidade curiosa; próxima ao mar, mas sem praia. E bem simpática, com muitos restaurantes convidativos, arquitetura clássica e um ritmo tão tranquilo, tão gostoso, que deu vontade de passar mais tempo lá.

Para chegar a Morretes de carro, existem dois caminhos. Um pela rodovia, com um pedágio salgado, e outro pela Estrada da Graciosa, mais lento e muito, mas muito mais bonito que o descampado batido das rodovias daqui. Quando digo “lento”, é lento mesmo — estimo que a velocidade média na ida, que é mais rápida, deva ter sido de uns 30 km/h. De qualquer forma, seria um pecado se fosse de outro jeito porque o visual da serra é deslumbrante, com suas curvas sinuosas e vegetação abundante. De quebra, há uns mirantes e quiosques pelo caminho, para parar e apreciar a vista. Não tirei fotos pois estava dirigindo (P., que foi comigo, também não), então fica só a dica de, se tiver a oportunidade, fazer esse trajeto.

Morretes é famosa pelo barreado, um prato que consiste em carne desfiada, quase derretendo, misturada a arroz branco, farinha e banana. Assim que chegamos, procuramos um restaurante para, no meu caso, conhecer a iguaria. É… bem, carne de panela bastante cozida. Gostoso, mas acho que só vale comer pela curiosidade — não é nada muito diferente da carne de panela cozida que você provavelmente já comeu na sua cidade. Estando tão próximo ao litoral, talvez valha mais a pena apostar nos pescados e frutos do mar, como fizemos à noite. O barreado foi no Bistrô da Vila, um lugar bem bonito (o clima foi generoso conosco, combinando uma temperatura amena com um Sol radiante).

Há uma feirinha no coração de Morretes, à beira do rio Nhundiaquara, que corta a cidade. A maioria das barracas vende os produtos típicos de lá: bala de banana, cachaças variadas (em especial a de, adivinhe só, banana) e uns salgadinhos de mandioca, que chamam de aipim, e de, óbvio, banana. Mas o mais legal aqui são as pessoas: as que estão vendendo, as que estão comprando e as que só estão ali, à toa. Todas na rua, reclamando com seus corpos um ambiente público, comum; formando uma comunidade.

O finzinho de tarde e a noite ali me trouxeram à lembrança passagens da minha infância, quando, em Paranavaí, essa interação entre as pessoas existia — pelo menos na minha vida. Ia à casa da vó e, lá, primos e tios se reuniam, colocavam o papo em dia. Vizinhos se juntavam. Não quero soar o neoludita aqui, mas trocamos essas interações, notoriamente mais difíceis de cultivar, mas mais saudáveis, por uma variedade meio insossa — um grupo no WhatsApp ou qualquer coisa do tipo. É como trocar uma boa comida orgânica por um industrializado qualquer: sustenta, mas tão pior…

Como toda cidade antiga, Morretes, com seus 284 anos, mantém igrejas e inúmeros prédios históricos conservados. Não só: boa parte em uso, por lojas, restaurantes e órgãos públicos. Achei uma pena que do cinema tenha sobrado só a bela fachada — ele não funciona.

No domingo de manhã, andando pelo centro, vimos um cartaz na igreja anunciando a já tradicional Festa do Maracujá. Em sua quinta edição, as atrações seriam uma missa às 11h, grande almoço no salão de festas ao meio-dia e, às 15h30, bingo animado pela banda Garrafão — rigorosamente as mesmas da quarta edição, mas quem se importa?

P. topou vencer os 21 km dali até o distrito de Sambaqui (que poderia ser o nome de um grupo de pagode). A festa era idêntica às quermesses do interior, com poucas e sutis diferenças: a variedade dos pratos era maior, tinha suco de maracujá (isso e uns maracujás pendurados no teto, na entrada, eram as únicas justificativas para o nome da festa) e não conhecia ninguém (em Paranavaí, ou na sua cidade-natal, nessas ocasiões você revê gente de todas as fases da vida, até aquelas de quem já tinha se esquecido).

Ainda deu tempo de experimentar um saboroso sorvete de gengibre na volta.

Curitiba tem muita coisa legal, um leque aparentemente infinito de opções de lazer, muita gente tocando a própria vida, muita coisa acontecendo ao mesmo tempo. É empolgante de uma maneira bem peculiar e te conquista de modo sorrateiro. Quando se tem a oportunidade de quebrar a rotina, especialmente em um lugar que é antítese da cidade grande, a gente valoriza o que tem no dia a dia, mas ao mesmo tempo percebe, meio estupefato, coisas importantes que fazem uma falta danada.

26 Apr 2018