Excertos

por Rodrigo Ghedin

Os seus únicos momentos felizes, desde a tarde remota em que seu pai o levara para conhecer o gelo, haviam transcorrido na oficina de ourivesaria, onde passava o tempo armando peixinhos de ouro. Tivera que promover 32 guerras, e tivera que violar todos os seus pactos com a morte e fuçar como um porco na estrumeira da glória, para descobrir com quase quarenta anos de atraso os privilégios da simplicidade.

— Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão.

17/12/2021

Na escola arrebentada onde experimentou pela primeira vez a segurança do poder, a poucos metros do quarto onde conheceu a incerteza do amor, Arcadio achou ridículo o formalismo da morte. Realmente não se importava com a morte, e sim com a vida, por isso a sensação que experimentou quando pronunciaram a sentença não foi uma sensação de medo, mas de nostalgia. Não falou enquanto não lhe perguntaram qual era a sua última vontade.

— Gabriel García Márquez, Cem anos de solidão.

17/12/2021

Noutro dia vi um rapaz, num café, sem celular, sem tablet, sem smartphone… estava sozinho tomando café. Como um psicopata.

Rogério Skylab.

17/12/2021

O isolamento das redes sociais cobra um preço. Dia desses perguntei a uma amiga, que morava fora, quando ela visitaria o Brasil outra vez.

Ela havia voltado a morar no Brasil fazia sete meses.

Fiz uma conta no Instagram.

1/12/2021

35

Em todos esses anos em que publico reflexões no meu aniversário, em poucos me senti tão tranquilo como estou hoje. É estranho, considerando o caos coletivo em que estamos metidos, mas seria muito pior se estivesse uma bagunça aqui dentro também.

Aos poucos relaxo o isolamento a que me submeti devido à COVID-19. Vacinado, já consigo sair a lazer e rever pessoas queridas sem tanto receio, e em todas essas ocasiões descubro camadas extras de prazer e satisfação. A essa altura já consigo me antecipar àquele clichê que diz que só damos valor quando perdemos. Ou talvez porque essas perdas foram temporárias, com prazo para serem revertidas. Não sei o motivo, mas esses reencontros e redescobertas são muito gostosos.

Acho importante entrar neste novo ano reenergizado porque 2022 será um ano difícil, o ano decisivo da nossa geração. Você certamente sabe o motivo.

Espero recuperar aquele desejo de dois anos atrás, de falar mais com pessoas olho no olho. Recuperar hábitos interrompidos, como os exercícios físicos, ou o cuidado com o corpo, também negligenciado na pandemia. E tentar migrar para tecnologias livres, algo que virou uma estranha obsessão, quase um chamado — ou talvez (mais) um sintoma de que tenho passado muito tempo sozinho.

Uma grande mudança está em andamento: a de lar. Dividirei um apartamento com a P. após quase uma década morando sozinho. Acho que será legal.

Há onze anos faço uma reflexão pública da minha vida no dia do meu aniversário. Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31, 32, 33 e 34.

8/11/2021

Fatia de cuca de uva em prato pequeno branco, visão isométrica.

Fatia de cuca de uva, corte lateral, em close.

Cuca de uva.

17/10/2021

Foto de mãos segurando um celular tirando foto de um quarto. Ao fundo, o quarto desfocado.

Esculturas similares, enfileiradas, uma espécie de pedra/tronco acinzentado e alongado, com uma folhagem ao fundo.

Mulher de máscara, em ambiente com luzes vermelhas bem fortes e correntes presas no teto.

Na Casacor Curitiba, um dos lugares mais elitistas em que já estive.

16/10/2021

Comprei um monitor grande, 4K. Ficou grande demais na minha mesa. Encheu de cabos embaixo da mesa. Meu computador ficou lento com ele. E nem estava exatamente ruim antes.

Não compre coisas supostamente melhores. Consumir é o pior. Evite.

13/10/2021

O mais difícil é permanecer imóvel. Às vezes, é preciso mudar muito para continuar sendo o mesmo.

— Rafael Cardoso, Design para um mundo complexo.

7/10/2021

Quem diria que sentar a bunda na cadeira e gastar algumas horas fazendo uma tarefa levaria à realização da referida tarefa.

20/9/2021