Excertos

por Rodrigo Ghedin

Sobretudo devemos a [Günther] Anders o diagnóstico mais dramático do mundo mediático: “o conceito de progresso nos faz cegos para o apocalipse”. Isso equivale a dizer que nossos olhos foram anestesiados, sedados, para não mais ver os cenários catastróficos que o homem constrói no seu afã de apropriação ilimitada do mundo.

— Norval Baitello Júnior, A era da iconofagia.

7/5/2021

Recebi um e-mail marketing da farmácia com o assunto “O fim de semana tá chegando!” e ainda estou tentando dar sentido a isso. Estão me sugerindo uma overdose?

7/5/2021

A gente quer ajudar o pequeno comerciante do bairro, aí o pequeno comerciante aumenta o custo da entrega em 100%, sem aviso nem nada.

22/4/2021

Eu era absolutamente soviético: gostar de dinheiro era vergonhoso, o certo era amar os sonhos. (Acende um cigarro e fica em silêncio.)

— Svetlana Alexievich, O fim do homem soviético.

12/4/2021

Raspei a cabeça esperançoso de que ia ficar com um visual zen, meio budista, mas fiquei parecendo aqueles caras que espancam budista.

7/4/2021

Ele queria que eu fosse mais ousado, mais maluco. Disse-me, “Você tem que escrever como se seus pais estivessem mortos”. Meus pais estavam vivos. Aceitei seu conselho.

— Ian McEwan relembra o melhor conselho que já recebeu (de Philip Roth).

7/3/2021

Quadro do filme 'Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou'.

Babenco: Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou (Bárbara Paz, 2020).

13/2/2021

Fui da máscara de pano para a antiviral e agora N95/PFF2. Até dezembro estarei saindo de casa com um daqueles macacões amarelos que usam em acidentes nucleares.

30/1/2021

Começou aquela época gostosa do ano de comer panetone bom comprado por menos de R$ 10 no mercado.

19/1/2021

No “homem cordial”, a vida em sociedade é, de certo modo, uma verdadeira libertação do pavor que ele sente em viver consigo mesmo, em apoiar-se sobre si próprio em todas as circunstâncias da existência. Sua maneira de expansão para com os outros reduz o indivíduo, cada vez mais, à parcela social, periférica, que no brasileiro — como bom americano — tende a ser a que mais importa. Ela é antes um viver nos outros. Foi a esse tipo humano que se dirigiu Nietzsche, quando disse: “Vosso mau amor de vós mesmos vos faz do isolamento um cativeiro.

— Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil.

14/1/2021