Excertos

por Rodrigo Ghedin

Vai que…

Fui me deitar e senti umas pontadas intermitentes num ponto bem específico do braço esquerdo, o que me levou à conclusão de que estava morrendo.

Abri o Google. É aterrorizante o tanto de sintomas que um ataque cardíaco pode gerar e, para minha infelicidade, alguns deles tão corriqueiros que reparei se somavam naquele momento de preocupação ao já citado incômodo em meu membro superior.

Queimação no estômago, por exemplo. Eu acabara de retornar de uma visita prolongada à casa dos meus pais e tinha, na geladeira, uma lasanha à bolonhesa congelada. Para o jantar, assei ela e fiz arroz. A preguiça que me impediu de ir ao mercado mais cedo comprar comida de verdade e me levou a matar a fome noturna com uma bomba de sódio cobrou seu preço horas depois na forma de terror psicológico.

Não era um, mas sim dois sintomas. Fato: minha morte era iminente.

Não consegui dormir e após rolar de um lado a outro da cama por um bom tempo, levantei-me. Li um livro, ouvi música, abri o computador e voltei ao Google para pesquisar mais sobre “ataque cardíaco”. Nesse contexto, “suadouro” e “fadiga” despontaram em outro site que listava mais sintomas. Eu os sentia e embora eles se explicassem facilmente pelo calor infernal que fazia e o fato de que, naquele momento, estava acordado havia umas 20 horas, preferi acreditar que eram mais indícios do fim que se aproximava.

Fazia duas horas que estava sentado e minhas opções eram permanecer ali até cair — de sono ou morto — e pegar o carro e ir ao pronto socorro. Ensaiei mentalmente o que falaria à atendente, “eu acho que não é nada, mas na dúvida…” e quando me vi estava dentro do carro, estacionado em frente ao hospital, repassando uma última vez as palavras já ensaiadas à exaustão.

Quando a atendente respondeu ao meu relato: “não, tem que vir mesmo, vai que…” com genuína seriedade, senti um grande alívio. Por um breve momento, não parecer um hipocondríaco medroso foi mais importante que não morrer. Prioridades.

Esperei pouco para ser atendido. A enfermeira que faz a triagem tirou minha pressão (11 por 7) e meus batimentos cardíacos (70 bpm). Esperei mais um pouco em outra sala até ser atendido por uma médica igualmente séria, provavelmente a médica mais séria com quem já tive contato, o que talvez se justificasse por ela estar “tratando” um cara sem sintomas óbvios de infarto, mas que achava estar tendo um, às 4h da manhã de um dia útil.

No consultório, a médica de cara fechada me fez algumas perguntas triviais. Apalpou a região do meu braço dolorido e me pediu para que apertasse suas mãos. Poderia ser o início de um ritual padrão para dar notícias fatídicas, mas descobri depois que era só um teste de força. Aí ela me receitou uma injeção e um remédio a ser tomado de oito em oito horas para aliviar a dor do nervo ou seja lá o que fosse que estivesse doendo ali no braço.

A médica só deu risada quando confessei, meio constrangido, que temia pudesse estar tendo um ataque cardíaco. Riu e tranquilizou-me: não era um ataque cardíaco. Àquela altura já me parecia idiotice tocar no assunto, mas me vi impelido a fazê-lo pelo receio de que talvez algo importante, que só descobriríamos dali a algumas horas da pior forma possível, estivesse passando. Vai que…

26 Jan 2020

Retrato de uma jovem em chamas

Retrato de uma jovem em chamas (Céline Sciamma, 2019).

21 Jan 2020

Sósias

Nós, seres humanos, somos muito diversos. Cores, formas, traços, uma maravilha. Olhe mais de perto, porém, e verá que ao mesmo tempo somos todos bem parecidos. Não tem uma pessoa sequer que não te lembre outra — um amigo, um conhecido, um famoso, alguém aleatório no transporte público que você não consegue precisar com quem, mas tem certeza de que se parece com alguém.

Uma vez disseram que eu parecia com um ator do segundo escalão da Globo. Não soube quem era só pelo nome, aí saquei o celular, procurei fotos do fulano e… ok? Concentrando-me em partes específicas de seu rosto, consegui me ver naquele outro ainda que vagamente.

Só que ter um sósia não tão famoso é inútil. Quando essa conversa de quem se parece com quem surge, de nada me adianta ser parecido com aquele cara porque, embora eu não seja um entusiasta da teledramaturgia brasileira, não estou sozinho no fazer cara de paisagem quando seu nome é mencionado. O trabalho de pegar o celular ou enveredar no “é aquele, que fez o papel de coadjuvante do núcleo de humor daquela novela das 18h que foi um fiasco em 2011” é demais para um exercício coletivo a que recorremos quando sem assunto ou quando a verossimilhança (com alguém mutuamente conhecido aos interlocutores) é digna de nota.

Recentemente, mais de uma pessoa me disse que pareço com o protagonista psicopata de uma série norte-americana. Procurei fotos do sujeito, pois nunca vi a série, e não me achei em nada parecido com ele. “É o jeitinho de vocês que é parecido”, alguém esclareceu para meu completo horror. “Tipo, você não usa foto no WhatsApp”, emendou, não sei se para me tranquilizar ou dar uma dica.

12 Jan 2020

Comunicação não-violenta

Por vezes me julgo uma pessoa sensata — sentimento esse comum a todo ser humano pensante, imagino. Até que me vejo desmascarado, discutindo sem qualquer base e agressivamente o que caracteriza um tsunami com pessoas queridas, mas que também estão fora do tom e não têm a menor ideia do que estão falando. “São ondas gigantes”. “É a amplitude da onda”. Pega o celular, pesquisa. “Na verdade, é o comprimento da onda”. “É um terremoto no mar”.

Viver isolado dá a falsa sensação de se estar por cima, de conseguir ver problemas óbvios que só são óbvios porque os vejo de fora, tanto que quando adentro ao caos eles se tornam inescapáveis mesmo a mim, a pessoa supostamente sensata. Poderia ter me furtado de discutir a natureza dos tsunamis, ou discutido como se aquilo não parecesse uma questão de vida ou morte, mas não o fiz. Por quê? Não sei.

O próximo livro que quero ler é aquele “Comunicação não-violenta”. Espero descobrir nele a resposta, esperança esta também embasada fragilmente em comentários esparsos de gente aleatória que já leu o livro e deixou reviews positivos na Amazon e em uma vaga ideia de que a chave para solucionar esse problema específico (discussões desnecessárias e agressivas, não a definição de um tsunami) está na comunicação não-violenta, seja lá o que isso for. Convenhamos: é um título que promete muito, só de ler já bate uma paz, uma vontade de abraçar todo mundo e, sei lá, fazer um sarau.

Talvez a gente devesse discutir menos.

5 Jan 2020

Em que desordem vivíamos, quantos fragmentos de nós iam sendo lançados como se viver fosse explodir em estilhaços.

— Elena Ferrante, História da menina perdida.

22 Dec 2019

A vida invisível

A vida invisível (Karim Aïnouz, 2019).

22 Dec 2019

33

O último ano começou de uma maneira inesperada, com uma demissão. Abriu-se ali o caminho para viver um ano que sempre tive certeza que viveria, mas do qual sempre me esquivara até então: o de viver sozinho e trabalhar por conta própria, com dedicação exclusiva, no Manual do Usuário.

Os meus 32 foram um pouco áridos. Passei um tempão comigo mesmo, talvez mais do que seja saudável. Desgostei de muita coisa, vi-me impotente em muitos momentos, quase virei um cínico. Mas ainda tenho esperança. A vida pode melhorar, apesar dos pesares.

Há um ano, havia acabado de me inscrever em uma academia de ginástica. Sigo frequentando-a. É um lugar chato, mas os resultados compensam. Vendi meu carro e acho que contribuí para o silêncio digital, esse estado raro em uma época em que todos falam muito e muito alto. A única coisa que desejo para este ano que se inicia é falar com mais pessoas olho no olho, sem uma tela entre nós. Acho que é viável.

Anos anteriores: 24, 25, 26, 27, 28, 29, 30, 31 e 32.

8 Nov 2019

As redes sociais servem apenas para que as pessoas se expressem de forma rápida. E vivemos numa época em que vale a pena pensar um pouco antes de reagir. Creio que, se eu me expressar rapidamente sobre qualquer coisa, eu mesma desconfiarei de mim. Não custa nada refletir um pouco antes de postar o que for.

Soledad Gallego-Díaz.

6 Oct 2019

O que definia a nobreza no Brasil era o que ela não fazia. Dedicar-se ao trabalho braçal, cuidar de uma loja, atuar como artesão e demais atividades eram coisas para gentios ou cativos. Talvez por isso persista aqui um preconceito contra o trabalho manual, considerado símbolo de atividade “inferior” e menosprezada. Já os “nobres” deveriam viver do rendimento de aluguéis e de cargos públicos. Melhor ainda, se o capital permitisse, era ser proprietário de engenho e se cercar de um grande número de agregados, parentes e criados. Capital, domínio, autoridade, posse de escravos, dedicação à política, liderança sobre vasta parentela, constituíram-se nas metas desse ideal de nobreza, que dominava a sociedade colonial. Tal modelo idealizado perdurou durante todo o período açucareiro, criando uma sociedade patriarcal pautada num padrão de família estendida. Se a família biológica era o núcleo do engenho, fazia parte do cabedal de um senhor contar e suprir agregados, parentes, criados e escravos.

— Lilia M. Schwarcz e Heloisa M. Starling, Brasil: Uma biografia.

22 Sep 2019

Persona

Bacurau (Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, 2019).

22 Sep 2019