Excertos

por Rodrigo Ghedin

O amor líquido de Bauman

Lábios em formato de coração

Logo no início de Amor Líquido, o sociólogo polonês Zygmunt Bauman resume do que se trata o livro:

A misteriosa fragilidade dos vínculos humanos, o sentimento de insegurança que ela inspira e os desejos conflitantes (estimulados por tal sentimento) de apertar os laços e ao mesmo tempo mantê-los frouxos, é o que este livro busca esclarecer, registrar e apreender.

Ao longo de quase 200 páginas, Bauman faz um passeio descritivo e em forma livre de como vê o amor no contexto da sociedade líquida. Apesar do problema do aquecimento global, o termo não se refere a um futuro apocalíptico dominado pela água, similar ao visto em Waterworld, mas sim a uma sociedade em constante mudança, sem formas definidas, contrária à solidez das instituições e relacionamentos de antigamente. O amor, pois, também sofre a interferência dessas mudanças do meio.

Para Bauman, o amor na sociedade líquida troca a qualidade pela quantidade, livra-se dos compromissos e chateações, e se mantém apenas enquanto as duas partes acreditam estar tirando vantagem da situação. Pegando emprestada uma frase de Ralph Waldo Emerson, ele compara: “quando se esquia sobre gelo fino, a salvação está na velocidade”. Ou seja, na falta de um porto seguro para a nossa solidão, na falta de alguém que nos assossegue e elimine a separação a que faz referência Erich Fromm, o ser humano pós-moderno mergulha na celeridade das relações líquidas, efêmeras, rápidas e descompromissadas.

Tal qual a morte, diz ele, o amor não tem história própria. Não se pode aprender a amar da mesma forma que a morte não se pode ser ensinada. Outra semelhança entre os dois momentos é que não se pode evitá-los. A morte e o amor são, para Bauman, certezas da vida. Quem vê vantagens na liquidez do amor acaba, em algum ponto, revendo essa impressão.Isso tudo não significa, porém, que ele seja contra a liberalização sexual; ele critica a valorização excessiva do sexo casual, como expõe na página 64:

É correto, talvez até estimulante e ao mesmo tempo maravilhoso, que o sexo seja assim liberado. O problema é como mantê-lo no lugar quando o lastro foi lançado ao mar; como mantê-lo na fôrma se não se dispõe mais das estruturas. Voar suavemente traz contentamento, voar sem direção provoca estresse. A mudança é jubilosa; a volatilidade, incômoda. A insustentável leveza do sexo? (…) Quando o sexo se apresenta como um evento fisiológico do corpo e a palavra “sensualidade” pouco evoca senão uma prazerosa sensação física, ele não está liberado de fardos supérfluos, avulsos, inúteis, incômodos e restritivos. Está, ao contrário, sobrecarregado, inundado de expectativas que superam sua capacidade de realização.

As suscetivas tentativas de buscar o amor em relações fugazes (ou seja, em quantidade) cria o que o autor chama de “exercitada incapacidade de amar”. Não sei se minha leitura está correta, mas parece-me que ele diz, de outra forma, que não adianta “treinar”, que no fim o amor acontece. Meio clichê, mas o que são clichês se não, entre outras coisas, verdades repetitivas? Como Fromm já havia afirmado ao analisar o amor de um ponto de vista mais amplo, é um sentimento que dá trabalho cultivar e, ao mesmo tempo, não oferece quaisquer garantias (p. 29):

Relacionamentos são investimentos como quaisquer outros, mas será que alguma vez lhe ocorreria fazer juras de lealdade às ações que acabou de adquirir?

No livro fica claro que o maior peso que ele traz é a incerteza e que essa lhe é indissociável (p. 29, 35):

(…) “Estar num relacionamento” significa muita dor de cabeça, mas sobretudo uma incerteza permanente. Você nunca poderá estar plena e verdadeiramente seguro daquilo que faz – ou de ter feito a coisa certa ou no momento preciso.

Onde há dois não há certeza. E quando o outro é reconhecido com um “segundo” plenamente independente, soberano – e não uma simples extensão, eco, ferramenta ou empregado trabalhando para mim, o primeiro – a incerteza é reconhecida e aceita. Ser duplo significa consentir em indeterminar o futuro.

Ao final da primeira parte, Bauman toca no assunto tecnologia. Ele volta ao tema mais tarde (p. 78 e seguintes) e essas passagens são fascinantes por, mesmo escritas em 2003~2004, conseguirem antever com tamanha precisão as relações que se desenrolam hoje com força em redes sociais e aplicativos como Tinder e WhatsApp, suscitando reflexões sobre as várias formas de amar (p. 82):

A realização mais importante da proximidade virtual parece ser a separação entre comunicação e relacionamento. Diferentemente da antiquada proximidade topográfica, ela não exige laços estabelecidos de antemão nem resulta necessariamente em seu estabelecimento. “Estar conectado” é menos custoso do que “estar engajado” – mas também consideravelmente menos produtivo em termos da construção e manutenção de vínculos. A proximidade não virtual termina desprovida dos rígidos padrões de comedimento e dos rigorosos paradigmas de flexibilidade que a proximidade virtual estabeleceu. Se não puder imitar aquilo que esta transformou em norma, a proximidade topográfica vai se tornar um “ato de transgressão” que certamente enfrentará resistência.

Nesse trecho acima ele diz, sobre relacionamentos em geral, que a rapidez com que eles são constituídos e desfeitos, somada ao perfeccionismo que todos buscam em todo lugar não dão espaço para que a cumplicidade surja. Para mim o amor e até mesmo as amizades dependem, para ficar na analogia líquida, de um processo parecido com o da osmose. É o contato constante que nos permite a troca, que nos permite conhecer (e ignorar) os defeitos e descobrir e se encantar com as virtudes de quem nos é próximo. (E isso explica, por exemplo, porque é mais fácil fazer amizades na escola, na universidade e no trabalho – passamos um bom tempo com aquela gente todo dia, por anos.)

A partir da metade de Amor Líquido, Bauman dá uma leve guinada no discurso e começa a debater questões maiores. Equipara as relações humanas ao consumismo (“A solidariedade humana é a primeira baixa causada pelo triunfo do mercado consumidor”, p. 96), explica por que o primeiro mandamento é o ato fundador da humanidade e o que nos distancia da mera sobrevivência, e fala da importância de ser amado como condição precípua para se ter amor próprio.

Em seguida ele fala das cidades, que ao mesmo tempo em que nos aproxima fisicamente, nos afasta com a instauração do medo e a organização em silos – guetos, condomínios e afins. Fala do desequilíbrio entre a mixofobia e a mixofilia, dois fenômenos que ocorrem simultaneamente nas grandes cidades (“Viver na cidade é uma experiência ambígua”, p. 135). Resumidamente, diz que somos hostis a quem nos é estranho e que a arquitetura moderna das cidades fomenta o conflito, não o amor.

No fim, Bauman evoca a utopia de Kant que há 200 anos falava sobre ”a perfeita unificação da espécie humana por meio de uma cidadania comum”, ou que a globalização nos aproximaria mais e mais até sermos um só. Não foi o que aconteceu, em grande parte graças à tríade Estado/nação/território, a divisão moderna em países. Os refugiados são apontados como o lixo humano decorrente das fronteiras e das engrenagens sociais. Sem chances de se integrarem, eles vivem uma transitoriedade permanente. Tendo a incerteza como condição padrão em relação ao próximo, o amor incondicional não encontra terreno fértil para florescer e a condição básica para amar não se constitui. Seriam essas as raízes do problema?


Amor Líquido não é um livro fácil. Ele começa simples e tratando do assunto que o leitor espera, mas rapidamente escala para temas mais complexos que, de alguma forma, no fim se relacionam com a premissa. A forma com que Bauman o escreveu, puxando tópicos e os explicando em seguida, também não contribui muito no sentido de facilitar a leitura. Acho que é preciso alguma bagagem para lê-lo, bagagem que, ficou claro, eu ainda não tenho.

Apesar disso, e de eu ter sentido que não aproveitei boa parte do que está contido ali, Amor Líquido é um livro muito interessante para, se não entender, pelo menos ter uma ideia do amor contemporâneo. Os reflexos a gente vê em todo canto, em nós mesmos: namoros transitórios, casos rápidos, Tinder a todo vapor e em mais gente ficando sozinha até muito mais tarde. O que não é de todo ruim, claro. Mas embora eu também esteja nesse mar revolto de amor e eventualmente usufrua de tal condição, é difícil não concordar com Bauman no final. Na sociedade líquida, todos queremos um ponto de referência bem sólido: a compreensão e o colo de alguém em quem recostar no fim do dia.

Foto do topo: Gemma Bou/Flickr.

25 Jan 2015