Excertos

por Rodrigo Ghedin

Dia de figurante

Soube que um time de futebol argentino veio a Curitiba jogar contra o Atléthico (agora tem esse “h” no meio) por um campeonato que não me interessou muito saber qual era.

Na quarta, dia do jogo, fui malhar depois do almoço e já de saída notei pessoas com camisetas nas cores azul e amarelo. Depois, em uma churrascaria no caminho, reparei em uma mesa enorme cheia de homens de meia idade com camisas azuis e amarelas bebendo cerveja. Coincidência? Não. Eram todos torcedores que saíram da Argentina no meio da semana para assistirem a um jogo de futebol em outro país.

Senti-me como se fosse um figurante no filme da vida deles. Uma sensação rara. O nosso ponto de vista normalmente é egoísta: a gente sempre se acha protagonista de todas as situações, mesmo naquelas em que seríamos apenas um figurante não creditado, como quando ficamos em um canto num lugar onde não conhecemos ninguém e ao qual não fomos chamados. Fossem as cenas do parágrafo anterior um filme completo, eu teria sido um mero figurante.

Quando viajo, parece que a sensação de ser o protagonista da vida se intensifica. Afinal, estou longe de casa, fora da rotina, vendo a vida (dos outros) passar. O garçom que me atende no café, a recepcionista do hotel, os motoristas de aplicativos e, evidentemente, o cara de cabelo estranho e roupa de academia que passa na calçada do restaurante onde aguardo meu pedido em um horário em que, estivesse em casa, já teria almoçado, feito a “siesta” e voltado ao batente. Ou sendo eu aquele cara estranho que vai à academia logo após o almoço — pois o momento mais vazio do dia e uma das grandes vantagens de não ter que bater cartão é fazer os seus próprios horários.

28 Jul 2019