Excertos

por Rodrigo Ghedin

Toalhas novas

Enquanto sociedade do consumo, desenvolvemos uma espécie fetiche pelo novo. Espremer um tubo de pasta de dente pela primeira vez, abrir a caixa de um celular novo, exibir-se em uma roupa nova. Talvez não haja manifestação mais escancarada dessa obsessão que o sucesso dos vídeos de “unboxing” no YouTube.

Não nego que também gosto. O último luxo que me dei foram toalhas de banho novas. As minhas já estavam bem gastas, então usar as novas foi quase como redescobrir a experiência mundana de enxugar-se após o banho. É muito bom!

Ao mesmo tempo, foi com algum pesar que me livrei das toalhas antigas, já encostadas para, em breve, virarem panos de chão. Não se trata de criar um vínculo afetivo, o que a psicologia chama, no caso das crianças, de “objetos de transição”. Nem avareza, porque se sim as teria substituído pela opção mais barata da loja de departamentos, o que não ocorreu.

Em algum momento do passado caiu a ficha da finitude dos recursos e de como tudo que consumimos aumenta o nosso débito com a natureza. Vez ou outra penso que dou muita atenção a isso porque até coisas minúsculas, como ter que comprar outra pinça porque a minha sumiu — uma história real! —, me incomodam. Parece pouca coisa, é pouca coisa, porém veja: é uma pinça a mais produzida por culpa exclusiva da minha negligência. Completamente evitável.

Em paralelo a essa revelação, descobri um tipo de prazer menos eufórico, mais satisfatório no que me é familiar e no uso pleno dos produtos que já tenho. Imaginar um celular novo me remete aos transtornos de ter que migrar meus dados, configurá-lo do jeito que eu gosto e adaptar-me às suas particularidades. Gosto do meu, estou satisfeito e, sinceramente, não preciso de outro só porque a tela é maior/tem menos bordas ou a câmera é supostamente melhor. Isso vai desde esses produtos que levam mais tempo para serem trocados até os alimentos perecíveis. Tenho aperfeiçoado a logística doméstica a fim de evitar que a comida estrague, uma postura que contempla, também, o aumento da tolerância a alimentos que parecem passados, mas que ainda estão bons. (Uso como termômetro para não virar uma lixeira humana o fato de que não tenho recordação de intoxicações alimentares recentes derivadas de experiências mais ousadas nesse sentido.)

Naquela newsletter dos potinhos de temperos reclamei que ser ambientalmente consciente era trabalhoso, mas esse estilo de vida também tem um lado prazeroso, de que, mesmo fazendo pouco, você está fazendo alguma coisa. Uma espécie de contentamento.

No mais, espero que as minhas toalhas novas durem bastante.

21 Jul 2019