Excertos

por Rodrigo Ghedin

Loucamente equivocados

Cena de Loucamente Apaixonados.

Dia desses estava zapeando a Netflix em busca de um filme açucarado. (Às vezes o nível de glicose sentimental baixa e nada é melhor que duas horas vendo a felicidade fictícia alheia para restaurá-lo.) Encontrei Loucamente Apaixonados, de Drake Doremus. O algoritmo da Netflix disse que eu iria gostar, e como ele é o melhor amigo para indicar filmes, aceitei a sugestão. E isso foi antes de eu saber que o filme foi feito com umas Canon 7D, custou uma mixaria e foi a sensação no Festival Sundance em 2011.

Para quem esperava um pote de mel, Loucamente Apaixonados é um xarope que engana — docinho no começo, amargo no final. O filme conta a história de Anna (Felicity Jones), uma britânica que vai estudar um tempo em Los Angeles e acaba se apaixonando por um nativo, também universitário, que projeta cadeiras, Jacob (Anton Yelchin). Aí ela dá uma banana à imigração, o que zoa totalmente o seu visto americano e, por isso, os dois entram numa lenga-lenga intercontinental aparentemente interminável.

Parece chato falando assim, mas a montagem do filme dribla esse potencial problema com saltos temporais e uma sutileza tremenda em deixar aspectos importantes (e óbvios) de um relacionamento subentendidos, fora da tela. É um filme que engloba um grande espaço temporal e, ainda assim, tem um ritmo lento, capaz de desenvolver o argumento sem pressa.

Jacob e Anna terminam e reatam, encontram outros parceiros nesse meio tempo para apenas dispensá-los mais tarde e voltarem aos braços um do outro, têm discussões idiotas, têm momentos delicados de cumplicidade, são displicentes em coisas importantes e super dramáticos em alguns aspectos clichês — pense no “estávamos dando um tempo” do Ross, de Friends, num contexto dramático em vez de voltado à comédia. É o tipo de casal de que eu jamais quereria fazer parte.

O final, e cuidado com spoilers, é maravilhoso. Achei um pouco abrupto, mas foi uma sensação passageira: ele é maravilhoso. Após tantas idas e vindas, tanto sufoco para ficarem juntos, Anna rejeita um beijo de Jacob no chuveiro e sai de cena, e Jacob faz aquela cara “onde foi que errei?”, deixando um misto de confusão e indignação no espectador mais romântico.

A paixão é a faísca que faz nascer o amor, é apenas um ingrediente desse. Não são sinônimos. Poderia dizer que a distância, com encontros breves intervalados por longos períodos de separação, borrou essa diferença e os induziu à confusão, mas vemos tantos casais repetindo o erro embaixo do mesmo teto… talvez não seja o caso.

Os dois, Jacob e Anna, esperavam que a vida fosse uma versão continuada do ano em que se conheceram. Nunca é. Em sua crítica, Mick LaSalle escreveu, certeiro: “É muito bom ter a vida inteira à sua frente, mas o que acontece se você escolhe a vida errada e fica preso a ela?” E estendo a pergunta: o que acontece quando o erro só se revela após desperdiçarmos uma quantidade monumental de tempo e esforço, quando o fim pelo qual tanto lutamos se materializa e… bem, concluímos que não valeu tanto a pena assim?

Ou talvez eu tenha visto esse filme num momento meio cínico da vida.

28 Jun 2015 em #críticas