Excertos

por Rodrigo Ghedin

Meu primeiro bilhetinho amoroso

Charlie Brown

Hoje assistia a um episódio do Todo mundo odeia o Chris pela milésima vez (valeu, Record!). Aquele do dia dos namorados, no qual o Chris compra um cartão para sua namorada barraqueira, rasga o cartão da professora e tudo mais. Ah vai, você já assistiu um punhado de vezes também!

Aquele episódio me lembrou de uma passagem misteriosa e, ao mesmo tempo, gostosa de se lembrar. Como já se passaram muitos anos, acho que não faço mal em compartilhá-la com o mundo.

Era 2001 ou 2002, não me lembro ao certo. Estudava numa escola pública, início do Ensino Médio. Eventos festivos eram um tanto raros, de modo que me recordo dos poucos que rolaram e de que participei. Esse aconteceu em junho, uma festa junina matutina.

Não queria ir, mas acabei aparecendo. Não ia dançar quadrilha, nem nada, mas… enfim, fui. Cheguei cedo. Havia pouca gente na escola; alguns amigos estavam por perto, então me aproximei deles para jogar conversa fora.

As atividades ainda estavam começando. Nessa, a mocinha do “correio elegante”, aquela troca de bilhetes amorosos anônimos, chegou no nosso grupo e… é, você adivinhou: o bilhete era para mim.

Para que você entenda melhor o choque que senti, é bom contextualizar a situação. Eu era muito, muito tímido. Havia tido duas ou três amigas e ficava bem sem jeito com as meninas. Aquela coisa de enrubescer, não saber o que falar, esses sintomas que todo tímido conhece bem. Eu não era atlético nem muito bonito; em outras palavras, não arrancava suspiros do público feminino quando entrava na quadra com meus colegas de sala para as peladas da educação física.

Disso veio o meu espanto. Tinha meus amores platônicos, mas quando estava lúcido, longe do mundo imaginário onde todas as meninas tinham uma queda por mim, sabia que, na real, não tinha lá muitas chances. Então, quem seria? O bilhete veio sem identificação, como era de se esperar. A mensagem era bem clichê, aquela coisa de “minha vida se divide em antes e depois de você” ou qualquer coisa parecida. Que profundo! E de alguém com quem eu provavelmente sequer conversava!

Fiquei bastante envergonhado. Peguei meu bilhete e fui para casa, a cabeça a mil pensando em quem seria a autora… Na pressa, nem me toquei em dar uma sondada no restante da escola para saber quem estava lá, diminuindo assim o universo de apaixonadas por mim em potencial — ou, sendo mais realista, tentando achar alguém nesse universo que até então achava estar deserto.

Guardei aquele bilhete dentro de um gibi e lá ele ficou até eu perdê-los — o gibi e a primeira declaração (anônima) de amor que recebi de alguém. Isso, claro, considerando que fosse algo sério, que existisse alguém naquele colégio que gostasse de mim e tinha vergonha de se declarar. Poderia ser uma sacanagem dos meus colegas, e, se o caso foi esse, que vergonha ter confabulado tanto tempo às custas da brincadeira de um(ns) marmanjo(s)!

Jamais saberei quem escreveu aquele bilhete. Dada a liberdade que essa incerteza me oferece, prefiro pensar que foi sincero. E mais: que foi alguém por quem eu nutria algum interesse à época, pensamento esse que mantive comigo naquelas semanas posteriores ao ocorrido, quando experimentei, pela primeira vez, o que era ser querido por outra pessoa (ainda que desconhecida), o que era despertar uma lasquinha de amor em outro ser humano.

Perdi contato com quase todos os colegas e amigos da escola pelas intempéries da vida — e por um pouco de preguiça minha também, admito. Das meninas daquela época, o amor platônico passou, faz tempo. Jamais descobrirei se havia algum recíproco, mas não importa mais, não a mim.

Quando recordei de toda essa história, veio a tiracolo a angústia e os temores da descoberta da sexualidade. E lembrei-me de como era bobo. Como todos somos nessa fase, aliás. O bom de crescer é poder olhar para trás e ver que embora a gente mude, e bastante, independentemente de como ou onde estivermos, pequenas lembranças podem ser, de fato, inesquecíveis.

30 Mar 2011 em #relatos