Excertos

por Rodrigo Ghedin

"Como ser legal", de Nick Hornby

Você é legal? Digo, você é bom? Katie Carr, a personagem principal do livro Como Ser Legal, de Nick Hornby, faz esse difícil questionamento. Aliás, acho que o título traduzido ficou meio esquisito. O original é How to be good; uma tradução mais livre, menos literal e melhor poderia ser “como ser bom”, o qual, para ser sincero, é mais condizente com a história. Mas, independentemente do título — que em ambos os idiomas faz o livro soar a autoajuda —, trata-se de uma obra bem… legal.

Antes de falar do livro em si, vale dizer que Como ser legal é diversão garantida. Além de todo o apelo filosófico implícito, e isso, por mais paradoxal que seja, é evidente, os diálogos e pensamentos das personagens são hilários — não é difícil se pegar rindo sozinho ao lê-los. Hornby faz muitas boas referências e usa do sarcasmo e da ironia sem exageros para dar um tom cômico ao texto.

O livro conta um pedaço conturbado da vida da médica Katie, narrada pela própria, que tem como ponto de partida um pedido de divórcio feito por ela a seu marido, David, no meio de um estacionamento, via celular. Isso desencadeia uma série de acontecimentos que incluem um adultério, um guru espiritual e uma mudança de comportamento por parte de David, em virtude de DJ BoasNovas, o tal guru espiritual.

Aliás, BoasNovas é, de longe, o mais divertido da história. Suas idéias, seus chiliques e seu modo de falar (“saca?”) são muito engraçados! Não sei por que, mas o imagino como aqueles prisioneiros de guerra do jogo Metal Slug, da SNK. Completam o círculo de personagens principais os filhos do casal, Tom e Molly. Tom é seco e sagaz, e mesmo tendo apenas dez anos, em boa parte da história parece ser um dos mais adultos. Já Molly comunga das idéias excêntricas de BoasNovas e David; como diz Katie, é uma moralista em potencial.

Katie quer ser uma pessoa legal (boa). Foi por isso que escolheu a medicina como profissão, ou seja, a fim de ajudar aos outros para se sentir melhor consigo mesma. Mas, será que isso basta? O comportamento do novo David a deixa maluca e a leva a questionar tudo que diz respeito à benevolência que ela julgava esbanjar através do trabalho que exerce. É aqui onde se encontra o grande valor deste livro. O que é ser legal (bom)? Basta estar bem consigo mesmo ou é necessário expandir os horizontes, ver a coisa como um todo? E, sendo assim, é dever de todos colaborar para o bem comum? Pensamentos antagônicos (de Katie e David) expõem essas dúvidas através de prismas diferentes, nada convencionais.

Mal posso esperar para ler os outros títulos de Hornby (Alta fidelidade, Um grande garoto e Febre de bola).

19 May 2006 em #críticas